Germinal – Educação e Trabalho

Soluções criativas em Educação, Educação Profissional e Gestão do Conhecimento

Escola deveria ser garagem 9 de março de 2012

Filed under: Escritos nossos e de outros — José Antonio Küller @ 11:23 am
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Por  Alexandre Sayad, publicado originalmente no Portal Aprendiz em 08/03/2012

 

Pensar em modelos de educação que inovem ironicamente não é uma novidade. A morte do currículo foi decretada cinicamente algumas vezes – o paradigma de não seccionar o conhecimento em áreas de conhecimento chega a ser um discurso cansativo, proferido por quem acredita em uma “educação contemporânea”. O fato é que o mundo da educação padece por ser formado em sua maioria por pensadores, e não executores. Mudar um sistema de ensino é muito complexo; realizar experiências pontuais – construir escolas ideais – que sirvam de exemplo e instiguem mudanças maiores, não tanto. Mesmo assim educadores preferem elaborar teorias a realizar experiências e correr riscos.
Há alguns dias fui provocado por dois jovens e inteligentes documentaristas, Antonio Lovato e Raul Perez, a dar um depoimento sobre “a escola que considero ideal”. Nunca havia pensado de forma totalmente onírica e livre sobre esse tema, então coloquei minha mente para rodar antes da câmera ser ligada. Viajei muito no Brasil e no mundo para conhecer escolas; ouvi outras tantas de amigos. Nesse meu fluxo de pensamento interno me lembrei dos laboratórios do MIT (Massachusetts Institute of Technology), do
Schumacher College, da Escola da Ponte, da Cidade Escola Aprendiz, de uma escola dinamarquesa relatada pelo Rubem Alves, em que estudantes aprendiam a construir uma casa e também da Oregon Episcopal School, a OPS, que me encantou. Todos os exemplos têm elementos em comum: ignoram o currículo, pois trabalham por projetos – teoria que data dos anos 40. E todas são idealizadas e coordenadas por educadores fora dessa cátedra.
Antes de dar a reposta cara a cara com os dois cineastas, pensei, muito centralmente, nas minhas experiências com jovens produzindo comunicação – como o Idade Mídia, do Colégio Bandeirantes. Vivências em que os estudantes se apropriam do espaço escolar e aprendem muito mais assim: quando sua expressão surge no universo do aprendizado; e quando são estimulados a acreditar na sua capacidade de realização de um projeto – no caso uma revista ou um documentário. Mas quando comecei a falar, quis dar um passo atrás do meu sonho de escola educomunicativa para ser mais desamarrado de conceitos, e procurei achar pontos em comum a todas elas. E percebi: são experiências de e para “garagens”. Me lembrei daquelas garagens de casas antigas, onde se acumulam
bugigangas, mas há sempre uma mesa para se sentar e organizar as ideias. Portanto, cheguei a conclusão que minha escola ideal assemelha-se a uma garagem. Dessas mesmo onde as crianças têm a tentação de montar robôs com peças velhas.
Lá, o foco está na criação e inovação do estudante. O professor é um tutor que circula entre os objetos, orienta as criações e aprende muito também. Um tablet conectado à internet seria o material básico. Os produtos lá desenvolvidos trariam um pouco de cada disciplina. Quando terminei a entrevista, tive a estranha sensação de ter vivido essa atmosfera de garagem, na maioria das vezes, em ambientes educomunicativos. Fui induzido a pensar na comunicação novamente. Muito porque ela está no DNA do estudante antes mesmo da escolarização chegar. Este é seu ponto mais forte – joga a favor do estudante. A garagem tem um apelo tão forte para a educação que, se nenhum projeto for capaz de brotar daquele ambiente, ainda é possível vender limonada (como fazem os norte-americanos) ou montar uma banda de rock (como faz qualquer jovem). O que, em ultima instância, são também projetos.
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Revista Nova Escola e Os Protótipos Curriculares de Ensino Médio 13 de outubro de 2011

Marilza Regattieri. Foto: Carol de GóesA revista Nova Escola – Gestão Escolar, de agosto/setembro de 2011, publica uma longa matéria sobre o currículo do Ensino Médio. A matéria inclui uma  entrevista com Marilza Regattieri da UNESCO. Na entrevista, Marilza fala sobre os Protótipos Curriculares de Ensino Médio e de Ensino Médio Integrado, sobre os quais já escrevemos aqui. Transcrevemos abaixo um excerto da entrevista de Marilza:

Como funciona o protótipo de Ensino Médio de formação geral, criado pela Unesco em parceria com o MEC?


MARILZA Ele segue o modelo-padrão das escolas públicas brasileiras: três anos de duração e carga horária anual de 800 horas. O diferencial, porém, é que o currículo tem um núcleo de preparação básica para o trabalho e demais práticas sociais, que ocupa 25% do tempo letivo (200 horas anuais) e consiste num trabalho interdisciplinar que envolve todos os professores e estudantes de uma mesma série. Esse grupo irá desenvolver um projeto focado em atividades de pesquisa e trabalho tendo, para cada ano do Ensino Médio, um tema norteador – no primeiro, escola e moradia como ambientes de aprendizagem, no segundo, ação comunitária, e no terceiro, vida e sociedade. Essa formação curricular considera as áreas de conhecimento – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias – e a matriz de competências e habilidades do novo Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Leva em conta ainda o que chamamos de dimensões articuladoras do projeto – Ciência, Cultura, Tecnologia e Trabalho.

A íntegra da matéria pode ser lida clicando aqui.

 

Rio Grande do Sul vai mudar ensino médio 10 de outubro de 2011

 

O portal IG São Paulo, em texto de  Cinthia Rodrigues, no dia 08/10/2008, publicou a seguinte notícia:

 

 

A partir do ano que vem, escolas no Estado terão menos tempo de aulas exclusivas de uma disciplina e mais para projetos integrados

A partir de 2012, os estudantes do 1º ano do ensino médio na rede pública do Rio Grande do Sul deixarão de ter a tradicional divisão das aulas em química, física, biologia, história, geografia, sociologia, filosofia, língua, língua estrangeira, educação física e matemática. No lugar entrarão projetos temáticos interdisciplinares que contemplem as mesmas quatro áreas de conhecimento cobradas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza e as respectivas tecnologias.

A proposta apresentada em setembro pela Secretaria Estadual de Educação gaúcha ainda passa por debate com a rede durante este mês, mas a mudança é certa. “Todas as 1.053 escolas vão mudar em 2012”, garante a assessora do ensino médio do Departamento Pedagógico, Vera Maria Ferreira. Este ano, o Conselho Nacional de Educação (CNE) votou uma nova diretriz para o ensino médio que segue linha similar, mas a proposta aguarda homologação do ministro da Educação, Fernando Haddad.
A proposta também é congruente com os Protótipos Curriculares de Ensino Médio e de Ensino Médio Integrado, desenvolvidos pela UNESCO. Para ter acesso ao texto integral da matéria, clique aqui.
 

Aprender a aprender 30 de junho de 2009

Com o vídeo Aprendre a Aprendre, iniciamos uma nova categoria no blog: Educação Em Vídeo.


Sobre o vídeo, como um comentário breve, é importante destacar as características indispensáveis à incorporação dos esquemas operatórios do aprender com autonomia, que estão presentes na primeira fase do vídeo:

  1. o despertar do interesse pela aprendizagem;
  2. o lançamento, pelo mestre,  de um desafio (problema, projeto) passível de ser superado pelo aprendiz (o vaso de cerâmica);
  3. a indicação do resultado esperado (o vaso) e não do processo de obtenção dele;
  4. a indução, pelo mestre, da repetição do processo de fazer – refletir –  refazer;
  5. o mestre espera, com paciência e a distância que o aprendiz supere o desafio;
  6. a valorização do resultado obtido (o abraço).

Já na segunda parte do vídeo, o processo educativo tem caracaterísticas diferentes.


Utilizando essa diferença entre as duas partes do vídeo, em capacitação de educadores, sugere-se a seguinte forma de explorar o recurso:


 

1. Solicitar que os professores em capacitação relacionem as características do aprender a aprender presentes na primeira etapa do vídeo, como fizemos acima.


 

2. Depois, perguntar pela diferença entre os dois momentos educativos (confecção do vaso e a sequência posterior);


 

3. Lançar a pergunta: a segunda parte do vídeo pode ser considerada uma forma de facilitar o aprender a aprender, como foi a primeira?


 

4. Debater;


 

5 Concluir.

 

O MEC anuncia: a aula expositiva e a demonstração estão proibidas 12 de junho de 2009

Piet Mondrian - Opposition of Lines

Piet Mondrian - Opposition of Lines

É claro que o título deste post é uma ficção.

A aula expositiva é seguramente o método didático mais difundido e de uso quase exclusivo nas quatro últimas séries do Ensino Fundamental, em todo Ensino Médio e no Ensino Superior. A demonstração (mostrar como se faz e pedir para repetir) é ainda o método prevalecente na educação profissional e no ensino que envolva um saber fazer qualquer.

Um Ministro da Educação que ousasse uma proibição desse tipo de práticas provavelmente seria considerado louco e perderia seu cargo no dia seguinte. Se não perdesse e a proibição vigorasse para valer, milhares de professores não teriam nada o que fazer na próxima aula. No mesmo dia, milhões de alunos seriam retirados de sua passividade recorrente ou de sua atividade subserviente.

A proibição não seria um ato despropositado? Daria resposta a uma questão importante? Face aos problemas da educação brasileira parece uma medida superlativa, tratando de coisa menor. Não é.

Desconsiderando a pouca efetividade deles, sabe-se que os métodos centrados no professor nem sempre partem e sempre dependem do saber existente em um determinado grupo-classe. Assim, o “bom professor” ajusta sua fala ou sua demonstração ao saber prévio de seus alunos.

O professor inclusivo, preocupado com promoção de todos os seus alunos, especialmente dos mais carentes, ajusta sua palavra ou demonstração para atender aos que menos sabem. Foca no grupo dos 25% mais fracos, digamos. Já o professor “durão”, preocupado com a “qualidade” do ensino, ajusta seu foco nos que mais sabem.

Um e outro perdem 50% da turma. Um por desinteresse e o outro por incompreensão. A proibição teria o mérito de parar com essa perda inconcebível e irreparável.

Robbi Mussers - The Four Faces of  Whiskres

Robbi Musser - The Four Faces of Whiskres

Proibida a exposição e a demonstração, o que colocar no lugar?

Qualquer método centrado na atividade dos alunos, orientada por problemas, desafios ou projetos teria o mérito de focar o ensino no grupo mais avançado sem deixar para trás os que menos sabem (Vigotski, zona de desenvolvimento proximal). Basta um mínimo de organização dos pequenos grupos.

Em um conjunto ainda inacabado de artigos temos abordado uma alternativa metodológica à exposição e à demonstração, que denominamos de aprendizagem criativa. É uma insignificante parte do repertório metodológico disponível como alternativa à fala e ao gesto magistral. Não é a ausência de opções que mantém as velhas práticas excludentes.

Neste blog, temos discutido as causas do imobilismo. Em uma série, também ainda inconclusa, sobre o Ensino Médio localizamos quatro causas: o currículo imutável, o sistema de formação de professores, a atual facilidade de operação administrativa do ensino (de teor taylorista/fordista) e o pensamento pedagógico dominante.

Um monstro de quatro faces segura a evolução. Quem terá a coragem de enfrentar tal animal? Armas inusitadas precisam ser usadas. Senhor Ministro, que tal proibir a aula expositiva e a demonstração?

 

Maria Nilde Mascellani 24 de fevereiro de 2009

 

Este texto, release de Maria Nilde Mascellani – foi lido na inauguração do Ciep em Americana que levou seu nome, em 11 agosto 2007. O texto foi reproduzido do blog Vocacional: ontem, hoje e sempre na mente, onde outras informações sobre os Ginásios Vocacionais podem ser encontradas.


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Principal figura ligada aos Ginásios Vocacionais, a professora e pedagoga Maria Nilde Mascellani nasceu em São Paulo a 03 de abril de 1931.

 

Filha do dentista Dr Tito Mascellani, descendente de imigrantes italianos, e da dona-de-casa Margarida Swoboda Mascellani, de origem austríaca, Maria Nilde tinha mais três irmãos. Estudou a partir da 2ª série ginasial, atual 6º série, na Escola Estadual Padre Anchieta no Brás, bairro onde a família morava.

 

Foi na adolescência que os primeiros sinais da doença que a acompanharia durante toda a sua vida se manifestaram. Vítima de reumatismo deformante, quando adulta caminhava com dificuldade, sentia muitas dores e só suportava as crises a base de analgésicos. Essa terrível enfermidade, no entanto, não impediu que Maria Nilde dedicasse toda sua energia para o problema da educação e suas alternativas, tornando-se uma das maiores educadoras que o Brasil já teve.Concluído o ginásio, seguiu o Curso Normal (Curso de Formação de Professores) na mesma escola, o Padre Anchieta. No ano de sua formatura como professora primária, ingressou no curso de Pedagogia da Universidade de São Paulo. Foi aluna e depois se tornou muito amiga do professor Florestan Fernandes, seu mestre e inspirador.

Como professora de Educação, lecionou em escolas públicas do Estado. Foi trabalhar no Instituto de Educação da pequena cidade paulista de Socorro, e em 1959, faz parte da equipe das Classes Experimentais de Socorro que, fundamentadas na linha pedagógica da Escola de Sévres (França), viriam a ser a semente do Sistema de Ensino Vocacional.

 

Luciano Carvalho, secretário da Educação do Estado de São Paulo na época, formou uma comissão de educadores para elaborar um projeto piloto de educação que levasse em conta a vocação do aluno e abrisse as portas da escola para a comunidade e suas aspirações. Maria Nilde Mascellani foi um dos nomes chamados para fazer parte da montagem do S.E.V. (Serviço de Ensino Vocacional) e após sua criação em 1961, tornou-se sua coordenadora, ficando no cargo até o ano de sua extinção, em 1969.

 

O S.E.V. constituiu-se como um órgão especializado, diretamente subordinado ao Gabinete do Secretário da Educação do Estado. Foram instaladas seis unidades em todo Estado. A unidade da capital começou a funcionar em 1962, bem como as unidades da cidade de Americana (zona industrializada) e Batatais (zona agrícola). Em 1963, instalaram-se as unidades de Rio Claro (centro ferroviário), Barretos (zona agropecuária) e, em 1968, entrou em funcionamento a unidade de São Caetano do Sul. Todas ofereciam o então 1º ciclo do ensino secundário (de quatro anos) em período integral. A partir de 1967, instalou-se na unidade da capital, Oswaldo Aranha,o ensino médio de 2º grau e o curso noturno que atendia aos jovens trabalhadores do bairro com escolaridade tardia. Nos seus oito anos de existência, as Escolas Vocacionais desenvolveram-se em termos estrutural-administrativos e conceituais.

 

Os Ginásios Vocacionais continham uma proposta pedagógica revolucionária que utilizava estratégias de integração curricular, como os estudos do meio e os projetos de intervenção na comunidade e planejamento curricular através da pesquisa junto à comunidade. Na construção do currículo, procurava-se trazer a realidade social para o interior da escola.Os GVs foram definidos como escolas comunitárias instaladas a partir de sondagens das características culturais e socioeconômicas da localidade.

 

Procuravam executar programas de interesses comuns com outras instituições, particularmente outras escolas primárias e secundárias. Suas linhas diretrizes na condução da prática pedagógica eram a apreensão integrada do conhecimento, o valor do trabalho em grupo, o desenvolvimento de condições de maturidade intelectual e social, o exercício consciente do trabalho, a definição de opções de estudo e ocupações, a disposição para atuação no próprio meio e a descoberta da responsabilidade social.

 

A área de maior peso era a de Estudos Sociais, que incluía noções de História, Geografia, Economia, Sociologia e Antropologia. Uma ou outra dessas disciplinas poderia ser explorada mais profundamente, dependendo da unidade em estudo. A partir dos Estudos Sociais desenvolvia-se um sistema de relações com as demais áreas: Português, Matemática, Ciências, Física, Biologia, Economia Doméstica, Artes Industriais, Práticas Comerciais e Agrícolas, Artes Plásticas e Educação Musical e, conforme o tipo de situação-problema, seriam obtidos diferentes esquemas integratórios.

 

Esse currículo integrado exigia, para sua execução, a ação articulada de professores, funcionários e demais técnicos.

 

O processo de avaliação nessas escolas também era considerado inovador: substituía as notas por conceitos. Os alunos se auto-avaliavam em relação aos objetivos, aos métodos e estratégias, conteúdos e atitudes. Atribuíam a seu próprio desempenho um conceito que era levado aos Conselhos de Classe e aí eram discutidos.

 

GV de Batatais

Implantada em um momento de intenso debate político e desenvolvida em grande parte sob o regime militar, a experiência do Serviço de Ensino Vocacional foi constantemente objeto de controvérsias, sabotagens e, por fim de aberta repressão. Maria Nilde sofreu muitas pressões como coordenadora do S.E.V. Em 1965, por exemplo, no governo Adhemar de Barros, o S.E.V. recebia inúmeros pedidos de contratação de professores e técnicos e de vagas para alunos que não tinham passado pelo processo de seleção. Diante da resistência em atender esses pedidos, o S.E.V. começou a receber ameaças de corte de verbas e de demissões de funcionários não comissionados. A primeira grande crise, conhecida dentro do S.E.V. como a “crise de 65”, aconteceu diante da negativa de matricular um candidato a aluno que era filho de um funcionário de confiança do secretário de Educação, e que não tinha passado no processo de seleção no Oswaldo Aranha. Esta atitude causou o afastamento de Maria Nilde da coordenação do S.E.V e da diretora administrativa do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha.

 

Esta intervenção mobilizou todos os professores e funcionários da rede de Ensino Vocacional e das Associações de Pais e Amigos do Vocacional, órgãos de representação dos pais de alunos que tinham grande envolvimento com a escola.

 

Houve muita mobilização, assembléias na capital e no interior. O envolvimento de pais, professores, pessoas representativas da comunidade e com a grande imprensa dando cobertura ao movimento, fez com que o governo voltasse atrás e reconduzisse, através de um decreto, Maria Nilde ao cargo de coordenadora e nomeasse Joel Martins e Lygia Furquim Sim como diretores do Oswaldo Aranha.

 

Aula de economia doméstica

GV de Batatais

 

 

 

O último período de vida do Ensino Vocacional coincidiu com o endurecimento do regime ditatorial. Com a criação do Ato lnstitucional n° 5, o governo adquiria armas para reprimir as liberdades democráticas. No Ensino Vocacional isso significou a prisão de orientadores, professores e alunos, e a invasão policial-militar em ação conjugada para todos os Ginásios Vocacionais no dia 12 de dezembro de 1969. Vários professores e funcionários foram detidos. Em janeiro de 1970, Maria Nilde foi aposentada com base no AI-5.

 

Impedida de trabalhar pela ditadura, Maria Nilde, juntamente com alguns ex-companheiros de serviço público, também perseguidos pelo regime militar, criou a Equipe RENOV, entidade de assessoria, projetos, pesquisa e plane­jamento de ação comunitária e educacional, com atuação na defesa dos direitos humanos e dos per­seguidos políticos do regime militar. O RENOV (Relações Educacionais e do Trabalho), foi a alternativa encontrada para, a partir da área privada, continuar formando educadores, jovens de grupos populares e outros. Em janeiro de 74, o RENOV foi invadido por policiais militares e Maria Nilde e seus companheiros foram presos por cerca de um mês.

 

Levada para o SEDES pela psicóloga Lélia Vizanni, sua amiga desde a juventude, Maria Nilde logo abriu seu espaço dentro da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Criou um centro educacional e se tornou professora de psicologia educacional. Professora da PUC a partir de 1970, orientou teses de inúmeros alunos, deixando para segundo plano, a sua própria tese de doutorado. Em toda a sua carreira como pedagoga, trabalhou com Educação Popular em programas educacionais, formais ou informais, para a população de baixa renda excluída da escola. Colaborava com os programas educacionais da CNBB desde 62. A partir de 1972, esta colaboração se dá por intermédio do RENOV. Neste mesmo ano, implantou um programa para mulheres de baixa renda na Favela Buraco Quente junto à paróquia Nossa Senhora do Guadalupe, no Campo Belo, e prestou assessoria ao projeto Educacional junto a Favela do Jaguaré, também na capital.

 

Em 1995, a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM/CUT) procurou algumas instituições de ensino e pesquisa (PUC-SP, UFRJ, UNICAMP, CEFET-SP) para estabelecer uma parceria com o objetivo de estruturar, inicialmente no âmbito estadual e posteriormente no nacional, um amplo projeto de qualificação profissional para metalúrgicos e ex-metalúrgicos, Era o projeto INTEGRAR. A principal idealizadora deste programa foi a professora Maria Nilde Mascellani (PUC-SP). Ela conseguiu reunir sindicalistas, intelectuais, professores e trabalhadores e juntos, montaram um currículo formado por disciplinas básicas e técnicas que estavam relacionadas à experiência dos alunos (o saber acumulado) e à comunidade da qual faziam parte. Nestes anos todos, foram realizados vários cursos para trabalhadores desempregados, empregados e dirigentes sindicais sempre articulando o diálogo entre o mundo do trabalho, a certificação em nível de ensino fundamental, médio e de extensão e a ação concreta para a transformação social.

 

Maria Nilde não se casou e nem teve filhos. Em 19 de dezembro de 1999, vítima de um infarto fulminante, morreu aos 68 anos em São Paulo, interrompendo uma trajetória marcada pela honestidade intelectual, sensibilidade aos pro­blemas do ensino e coragem. Finalmente, acabara de defender na Faculdade de Educação da USP, no dia nove do mesmo mês, sua tese de doutorado Uma Pedagogia para o Trabalhador: o Ensino Vocacional como base para uma proposta pedagógica de capacitação profissional de trabalhadores desempregados (Programa Integrar CNM/CUT), que versava sobre duas de suas realizações: o Ensino Vocacional e a Pedagogia do Programa Inte­grar, da Confederação Nacional dos Metalúrgicos.

 

O trabalho de Maria Nilde faz parte da história da educação brasileira desde os anos 60 e sua proposta de ensino vocacional como base da capacitação de trabalhadores, realizada no projeto Integrar, resgata uma dívida social sem ter assumido uma forma assistencialista.

 

Portal do Futuro 16 de outubro de 2008

 

Portal do Futuro é um projeto destinado para jovens em situação de risco de exclusão social, desenvolvido pelo Senac Rio, com consultoria da Germinal. O projeto destina-se à capacitação básica de jovens para atuação no Setor de Comércio e Serviços. Para tanto, está organizado em torno de competências básicas e gerais requeridas por toda ocupação de comércio ou de serviços.

 

A Germinal participou ativamente no desenho do Programa e prestou consultoria na elaboração dos manuais dos docentes das oficinas que constituem os três módulos fundamentais do programa: Ser Pessoa, Ser Cidadão e Ser Profissional.

 

O programa foi desenhado e implementado no ano de 2.000. Desde o seu lançamento, já foi desenvolvido em 45 municípios do Estado do Rio de Janeiro e atendeu um número superior a 6.000 jovens. Muitas páginas da internet falam do Portal do Futuro.

 

O site do Senac Rio, informa:

 

 O programa Portal do Futuro insere, no mercado de trabalho, jovens com idades entre 16 e 21 anos em situação de risco social, tendo como base métodos pedagógicos modernos, sintonizados com as tendências socioambientais do novo milênio.

 

Organizado por projetos: Ser Pessoa, Ser Cidadão e Ser Profissional, propõe desafios que levam o participante à produção de trabalhos relevantes para seu amadurecimento pessoal e profissional. O programa  já passou por 45 municípios, capacitando mais de seis mil jovens.

Muitas empresas são parceiras desse projeto, que demonstra  resultados de impacto para o participante, sua família, para as comunidades e para os mercados.

 

Mais informações:
Centro de Educação para o Trabalho e a Cidadania do Senac Rio
Tel.: 21 2473-8671

 

 

O Correio do Senac, publicação do SENAC Nacional, complementa:

 

Em seu quarto ano de realização, o Portal do Futuro mostra-se como um programa de sucesso na preparação de jovens para o Primeiro Emprego. Ao longo desse período, o programa atendeu 3.500 adolescentes, tendo encaminhado 68% ao mercado de trabalho.


Coordenado pelo Centro de Educação para o Trabalho e Cidadania, o programa é resultado de um convênio firmado entre o Ministério do Trabalho e Emprego, a Confederação Nacional do Comércio, com a interveniência do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador – CODEFAT, visando o desenvolvimento de ações de educação profissional a serem executadas pelo
Senac Rio.

 

 

A Agência Brasil cita o Programa:

 

Rio de Janeiro – Cerca de 150 jovens de baixa renda, com idades entre 16 e 24 anos, moradores de Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, vão receber até o fim do ano qualificação para o mercado de trabalho. Eles participam do Portal do Futuro, uma iniciativa do Senac.

 

O ministro Paulo Vannuchi, da SEDH, em visita hoje (17) às instalações do Portal do Futuro, afirmou que se trata de uma experiência importante porque é capaz “dar uma virada” na vida de jovens que poderiam se envolver com o crime organizado ou daqueles que já tiveram algum tipo de problema com a lei. Além de qualificar jovens da comunidade, o programa também recebe adolescentes que cumprem medidas socioeducativas de liberdade assisitida.

 

 

 

A publicação Desafios do Desenvolvimento, a revista mensal de informações e debates do IPEA e do PNUD, também fala do Portal do Futuro:

 

Emprego
Caminhando contra o vento
Como na canção de Caetano Veloso, os jovens brasileiros enfrentam momentos difíceis. Pesquisa do Ipea mostra que 48% dos desempregados têm entre 15 e 24 anos. Sociedade e governo buscam soluções para a crise dos jovens
Walter Clemente

 

(…) merece atenção o Portal do Futuro, programa de inclusão social para jovens de baixa renda do Centro de Educação para o Trabalho e Cidadania do Senac do Rio de Janeiro. Tarcísio de Carvalho, de 18 anos, procurou o Portal do Futuro para fazer um estágio. Filho de um frentista de posto de gasolina em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, encontrou emprego como auxiliar de escritório numa escola em Duque de Caxias, também na Baixada, e escolheu sua carreira:”Vou ser psicólogo”. O Portal do Futuro atua em Irajá, no subúrbio carioca, e há cinco anos prepara jovens de baixa renda para o mundo do trabalho.” Meninos e meninas saem daqui com um plano de vida”, diz Mônica Volpato, gerente do projeto.

 

 

 

O blog FOCO DESIGN divulga o trabalho realizado na edição dos manuais que referenciam a ação dos docentes do Portal:

 

 

 

 

 

 

 

 

Esses são os livros do Portal do Futuro, um projeto maravilhoso e importantíssimo do Centro de Educação para o Trabalho e a Cidadania do Senac Rio. Já tinha feito uma versão desses livros com o Marcos Castilho, meu sócio na época; alguns anos depois o CET encomendou um novo projeto, totalmente diferente do anterior. Foram desenvolvidos pictogramas baseados na marca Portal do Futuro (que não é minha) para ilustrar as três fases do programa (“ser pessoa”, “ser profissional” e “ser cidadão”), e mais uma família da mais de 16 pictogramas para as oficinas (“conhecendo meu bairro”, “toque a tecla”, “escrever é fácil” e “aprendendo a aprender”).

 

 

A matéria publicada no site da São Rafael, Sociedade de Previdência Privada, ajuda a apresentar a estrutura básica do Programa:

 

Teoria aprendida na prática

As oficinas do Portal do Futuro desenvolvem competências específicas, que possibilitam a entrada do jovem no mercado. Mas além da manipulação da Internet e do aprendizado do idioma inglês, o programa se preocupa em formar um cidadão responsável, capaz de dirigir seu futuro com liberdade e responsabilidade.

 

Para isso, os jovens começam no programa com as oficinas do projeto “Ser Pessoa”, onde o produto final é a redação de um livro sobre sua vida. Para que o aluno cumpra bem esta tarefa, ele passa por aulas práticas de redação e técnicas de expressão, formas literárias e de edição de texto no computador, por exemplo.

 

Passado este estágio, o aluno ingressa nas aulas do “Ser Cidadão”, que incentiva os jovens a identificarem as necessidades e possibilidades de melhoria na rua, no bairro ou cidade onde mora. Assuntos como qualidade de vida e respeito ao meio ambiente são debatidos para a realização da tarefa estabelecida: um pedido formal para a intervenção de órgãos competentes nos problemas socioculturais identificados pelos próprios alunos.

 

O projeto “Ser Profissional” está subdivido em duas áreas que atendem as expectativas do aluno, que poderá escolher pelo grupo interessado em trabalhar em uma empresa ou pelo grupo que pretende abrir seu primeiro negócio. As aulas práticas abordam temas como as relações interpessoais, análise de oportunidades, noções básicas de inglês e Internet e legislação trabalhista.

 

Para completar o ciclo do programa Portal do Futuro, o jovem vai a campo, ver como funciona o dia-a-dia de uma empresa. “As parcerias comerciais do Senac Rio estão sempre de portas abertas para os nossos alunos e aproveitamos este relacionamento para ampliar os conhecimentos dos jovens participantes do programa. Acreditamos que com estes três projetos, aumentamos as chances de uma inclusão no mercado de trabalho”, conclui Giselle.

 

 

O JB ONLINE Mostra uma das possibilidades de desdobramento do Portal do Futuro:

 

Em Irajá, a escola do samba

Compositor Ney Lopes comanda projeto que ensina música a jovens carentes

Waleska Borges

Gabriel Jauregui

Ney e a turma do Portal do Futuro

Ney e a turma do Portal do Futuro: aulas resgatam auto-estima dos jovens de Irajá e bairros vizinhos

Eles são jovens, moram em comunidades carentes do subúrbio carioca e gostam de samba. Cheios de sonhos e com um objetivo em comum: fazer da arte a fonte de renda. Nas aulas de canto e dramaturgia, eles descobrem profissões como de contra-regra, noções de figurino, cenário e iluminação. Para 30 jovens do Rio, com idades entre 16 e 21 anos, o programa O Samba e o Irajá, do projeto Portal do Futuro, desenvolvido pelo Senac, representa a oportunidade do primeiro emprego.

 

 

 

 

O site PetBr mostra uma outra possibilidade de desdobramento:

 

Portal do Futuro Forma a Primeira Turma de Profissionais para Pet Shop Através da Parceria da Iams do Brasil e o Senac Rio.

No final do mês de maio forma-se a primeira turma do curso de “Formação de Mão de Obra ao Mercado Pet”, promovido, gratuitamente, pela Iams do Brasil (fabricante dos alimentos Iams e Eukanuba para cães e gatos) e o Senac Rio, para jovens de baixa renda entre 16 a 21 anos.

 

 

 

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Clique aqui (p. 205) ou aqui se quiser informações mais detalhadas sobre o plano de curso do projeto ou então consulte: Küller, J.A. e Freitas, W.B. (org.) Construindo a Proposta Pedagógica do Senac Rio. Rio de Janeiro, Editora Senac Rio, 2000.

 

 
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