Germinal – Educação e Trabalho

Soluções criativas em Educação, Educação Profissional e Gestão do Conhecimento

Educadores do Brasil: Edgar Roquette-Pinto 24 de agosto de 2011

Roquette-Pinto (Edgar R.-P.), médico legista, professor, antropólogo, etnólogo e ensaísta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de setembro de 1884, e faleceu na mesma cidade em 18 de outubro de 1954.

Era filho de Manuel Menelio Pinto e de Josefina Roquette Carneiro de Mendonça. Foi criado pelo avô João Roquette Carneiro de Mendonça. Fez o curso de humanidades no Externato Aquino. Ingressou, em seguida, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Colou grau em 1905. Logo depois de formado iniciou uma série de estudos sobre os Sambaquis das costas do Rio Grande do Sul. Professor assistente de Antropologia no Museu Nacional em 1906, tornou-se em pouco tempo conhecido como um dos mais sérios antropólogos que o país conhecera. Delegado do Brasil no Congresso de Raças, realizado em Londres, em 1911, resolveu passar mais algum tempo na Europa, a fim de dar prosseguimento aos estudos, com os professores Richet, Brumpt, Tuffier, Verneau, Perrier e Luschan.

Professor de História Natural na Escola Normal do Distrito Federal (1916) e professor de Fisiologia na Universidade Nacional do Paraguai (1920). Fundou, em 1923, na Academia Brasileira de Ciências, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que tinha fins exclusivamente educacionais e culturais e que, em 1936, doou ao Ministério da Educação.

Em 1912 Roquette-Pinto fez parte da Missão Rondon e passou várias semanas em contato com os índios nambiquaras que até então não tinham contato com os civilizados. De volta trouxe para o Museu Nacional vasto material etnográfico e como resultado dessa viagem publicou, em 1917, o livro Rondônia, com o sub-título Antropologia etnográfica, clássico da antropologia brasileira. Foi Roquette quem sugeriu dar a essa região o nome de Rondônia. Nesse campo de estudos publicou Ensaios de Antropologia Brasileira (1933) e Estudos Brasilianos (1941).

Diretor do Museu Nacional de 1915 a 1936, realizou um amplo trabalho de divulgação científica e empreendeu a feitura de uma grande coleção de filmes científicos. Em 1932, fundou a Revista Nacional de Educação; fundou e dirigiu, no Ministério da Educação, o Instituto Nacional do Cinema Educativo e fundou, também naquele ano, o Serviço de Censura Cinematográfica. Esteve em vários congressos nacionais e internacionais sobre temas de sua especialidade. Em 1940 foi eleito diretor do Instituto Indigenista Americano do México. No mesmo ano esteve no México e nos Estados Unidos.

Roquette-Pinto era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Brasileira de Ciências, da Sociedade de Geografia, da Academia Nacional de Medicina e de inúmeras outras associações culturais, nacionais e estrangeiras. Em homenagem aos seus estudos científicos, vários naturalistas famosos deram o nome de Roquette-Pinto a algumas espécies de plantas e animais: Endodermophyton Roquettei (Parasito da pele dos índios de Mato Grosso) por Olímpio da Fonseca; Alsophila Roquettei, por Brade e Rosenstock; Roquettia Singularis, por Melo Leitão; Phyloscartes Roquettei (pássaro do Brasil Central) por Snethlage; Agria Claudia Roquettei (borboleta) por May

O texto anterior foi reproduzido do original disponível no site da Academia Brasileira de letras que dispõe de mais informações sobre Roquette-Pinto. Para acessá-las clique aqui.

Anúncios
 

Educadores do Brasil – Antonio de Sampaio Doria 23 de setembro de 2010

Texto de Luís Mauro Martino, também disponível no site Navegando na História da Educação Brasileira.


Responsável pela reforma do ensino público paulista, educador é pouco conhecido mesmo do público especializado.

A luta pela democracia que o levou ao exílio foi sua principal preocupação ao iniciar, em 1920, a primeira – dentre várias que se seguiriam – tentativa de reforma do ensino público no Brasil. No começo da República a educação pública era um tema secundário, a ponto de estar vinculada ao Ministério dos Correios e Telégrafos. Além disso, cabia aos estados a organização dos sistemas de ensino em todos os níveis. Só que o governo federal podia fazer o mesmo, criando assim o campo para conflitos futuros.

Convidado pelo governo do Estado para coordenar a reforma do ensino paulista, Sampaio Dória teve a oportunidade de aplicar suas idéias educacionais. Sistematizado na lei nº 1750, de 8 de dezembro de 1920, a ação trouxe várias novidades e procedimentos ainda hoje vigentes.

Sua principal preocupação, dentro ou fora da reforma realizada, era a maneira de ensinar. Segundo o professor Lourenço Filho, uma dos principais interesses de Sampaio Doria era “tornar mais completo o aprendizado da arte de ensinar”. O próprio educador afirmou, no I Congresso Interestadual de Ensino, em 1922, que “o capítulo máximo da pedagogia era a didática, a metodologia do ensino, a prática pedagógica”.

“Governo democrático e ignorância do povo são duas coisas que se chocam, se repulsam, se destroem… Como um povo pode se organizar se não sabe ler, não sabe escrever, não sabe contar?” Sampaio Dória, in Questões de Ensino (1921)

Esse modelo, porém, teve um ponto positivo: deixando aos estados sua própria organização, ao contrário do que aconteceu no 2o Império, o governo permitiu que novas idéias fossem aplicadas e novas experiências fossem feitas.

A primeira delas foi a de Sampaio Dória. Apesar de ter se formado advogado, ele estava muito mais interessado em filosofia e problemas sociais do que em qualquer ramo do direito.

O trabalho começou com um recenseamento educacional, o primeiro realizado no Brasil. A criação das delegacias de ensino, existentes até hoje, também foi obra sua. Criou também, em consonância com suas preocupações, as “Escolas de Alfabetização” – com o objetivo de erradicar o que ele considerava o mais grave problema educacional do país. Unificou as antigas Escolas Normais, que formavam professores, e sistematizou a prática pedagógica. Chegou mesmo a instituir uma Faculdade de Educação para a formação de professores, mas o projeto não saiu do papel.

Influenciado pelas teorias da chamada “Escola Nova”, Sampaio Dória procurava o equilíbrio na relação pedagógica. Sem considerar o aluno como um ser passivo, era contra, porém, deixa-lo à própria sorte. O professor não deve centralizar o ensino na própria pessoa, mas também não pode, sob pretexto de “deixar os alunos descobrirem tudo”, esquecer de dar aula. Com um pouco de sorte, explica, um aluno levaria séculos para descobrir tudo o que deveria saber.

Para o educador, a aprendizagem só acontece quando o conhecimento racional e as informações dos sentidos trabalham juntos. Há certas coisas – calor e frio, por exemplo – que podem ser apreendidos pelos sentidos. Outros conceitos, porém, como idéias de liberdade ou de imortalidade, só podem ser adquiridos pelo raciocínio. Na escola, ambos devem ser cultivados pelo educador. A demonstração do professor deve acompanhar a dedução do aluno, sem que uma se sobreponha à outra.

“Na cooperação do professor e do estudante há uma justa medida de esforços recíprocos. Ao educador cabe a direção; ao educando, a realização”, escreveu Sampaio Dória. Ao contrário de outros pedagogos influenciados pela Escola Nova, ele coloca os deveres do professor ao lado dos deveres do aluno. Caberia ao educador sugerir atividades, criar ambiente de estudo e dirigir o esforço dos educandos. Os alunos, por sua vez, devem obedecer às sugestões e exercer atividades próprias – “quando alguém aprende a dançar, não adianta nada o mestre dançar por ele”, escreveu, em seu livro Educação, de 1933.

Na igualdade de tarefas entre professores e alunos, há um elemento comum: o conhecimento deve sempre partir da realidade para a teoria. É a partir da observação, realizada pelo aluno, que todo o processo de conhecimento tem início. “O professor só é eficiente se for compreendido. Só é eficiente o professor que fizer seus alunos observarem o que ensina e se escolher, para a observação, realidades que permitam análises espontâneas”, completa Dória, destacando a necessidade do exemplo explicativo.

E quando a aula trata de algo que não pode ser observado – uma aula de História, por exemplo? “No ensino daquilo que não puder estar materialmente presente ao observador, ou que não puder ser representado em forma perceptível pelos sentidos, cabe à palavra evocar vestígios do que se tenha observado, sugerindo, a partir daí, conhecimentos novos”, responde.

O professor deve utilizar palavras e conceitos que o aluno já conhece para desenvolver novas idéias. Não adianta simplesmente falar; ele deve encontrar, dentro do que o aluno já sabe, as palavras necessárias para a formulação das informações.

A liberdade de aprender não deve ser confundida com o caos pedagógico. A escola deve estimular o aluno, mas não deixar que ele faça o que quer. Afinal, justifica, se o aluno vai viver em sociedade, deve estar acostumado desde cedo a não fazer tudo o que quer.

A educação moral, nesse particular, é uma das maiores preocupações de Sampaio Dória, a ponto de ter dedicado, em 1928, todo um livro sobre o assunto.

A moral, para o educador, está ligada ao conhecimento. A disciplina é necessária, não apenas na escola, mas em toda a vida social. À medida que a compreensão da criança aumenta, pais e professores devem passar da ordem à advertência. Quando as crianças são pequenas, não adianta adverti-las, é preciso instituir sanções imediatas. Conforme a criança vai crescendo, as ordens devem ser substituídas por advertências, deixando a escolha ao livre arbítrio da criança.

“Querer que, na escola, as crianças façam o que lhes venha à cabeça, aprendam o que lhe der na telha, seria querer a anarquia, o caos e a ineficiência educativa. Não há vida social sem disciplina”.

Quem foi Sampaio Doria

Nascido em Belo Monte, Alagoas, em 1923, Antonio de Sampaio Doria veio para São Paulo ainda criança, onde concluiu o curso primário e fez os estudos secundários. Matriculou-se em 1904 na faculdade de Direito, formando-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1908. Nessa época, iniciou sua atividade no magistério, como professor no ginásio Macedo Soares e na Escola de Comércio Álvares Penteado. A advocacia não o atrai, e Sampaio Dória vai para o Rio de Janeiro, onde se torna redator de O Imparcial. O jornalismo também não o agradou. De volta a São Paulo, em 1914, tornou-se professor na Escola Normal da Praça da República. Em 1920, foi nomeado diretor geral da instrução pública paulista, cargo que ocupou até 1926, quando, via concurso, tornou-se catedrático de Direito Constitucional na Faculdade de Direito de São Paulo. Exonerado por Vargas em 1938, partiu para o exílio. Faleceu em 1964.

Encontrar informações sobre Sampaio Doria é como montar um quebra-cabeça. Apesar de sua importância no ensino brasileiro, ele é praticamente desconhecido. Enquanto Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo, que realizaram reformas educacionais semelhantes, são ainda hoje lembrados e estudados, o reformador do ensino público de São Paulo está esquecido. É citado de passagem em livros sobre a História da Educação Brasileira, como o de Nelson e Claudino Pilleti.

Seus livros estão esgotados há anos. Mesmo nas melhores bibliotecas de São Paulo é difícil encontrar alguma obra dele. No acervo da Faculdade de Educação da USP, por exemplo, apenas três de seus mais de dez livros estão disponíveis – um deles em cópia xerox. Também não existem pesquisas sobre seu trabalho como educador. O mais próximo disso é uma tese de Ana Clara Nery, defendida em 1999, que trata da Sociedade de Educação, fundada por Sampaio Dória, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Oscar Freire.

Uma primeira sistematização de seu pensamento é o livro Educação, disponível na Faculdade de Educação da USP

 

Educadores do Brasil – Paschoal Lemme 1 de dezembro de 2009

O texto a seguir foi extraído do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade da Universidade Federal do Rio de Janeiro, arquivo Paschoal Lemme.

Paschoal Lemme, 1978

Paschoal Lemme nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1904 e faleceu na mesma cidade em 14 de janeiro de 1997. Filho de Antônio Lemme e de D. Maria do Nascimento Paes, ambos brasileiros naturalizados. Casou-se em 1927 com D. Carolina de Barros e Vasconcelos, professora normalista, sua companheira por mais de meio século. O casal teve seis filhos.

Paschoal aprendeu a ler e a escrever com a mãe que usava a velha cartilha de Thomaz Galhardo. Fez o primário em escolas públicas do bairro do Méier. Na última delas, depois denominada Escola Profissional Visconde de Cairu, aproximou-se do Diretor, professor Teófilo Moreira da Costa que revolucionou os métodos de ensino e a disciplina. Esse professor exerceu forte influência no espírito de Paschoal, levando-o a optar pela profissão de educador. Em 1919, ingressou na escola normal, diplomando-se em 1923. No ano seguinte, foi nomeado professor adjunto do município, indo trabalhar em escola da zona rural carioca. Simultaneamente, a partir de 1925, após obter os certificados dos exames preparatórios no Colégio Pedro II, foi aprovado no vestibular da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, matriculando-se no Curso de Engenharia Civil que freqüentou até a 3ª série.

Em 1926, ingressou na Associação Brasileira de Educação, fundada em 1924, nas salas dessa Escola, por professores de seu corpo docente como Heitor Lira, Francisco Venâncio Filho, Mário de Britto e Edgar Sussekind de Mendonça, aos quais se ligou, desfrutando de sua convivência. A convite do Professor Teófilo, começou a ensinar Matemática Elementar na Escola Visconde de Cairu. Em junho de 1928, passou a integrar a equipe de Fernando de Azevedo que empreendia grande reforma do ensino no Distrito Federal, no cargo de assistente da Subdiretoria Técnica, dirigida por Jonatas Serrano, acumulando mais tarde com a função de Oficial de Gabinete e assumindo gradativamente responsabilidades maiores. Ao mesmo tempo, lecionava Matemática e era vice-diretor da Escola de Comércio Amaro Cavalcanti.

Fundou em 1931 o Instituto Brasileiro de Educação, visando à experimentação pedagógica e à aplicação de novos métodos de ensino. Participa das atividades da Associação Brasileira de Educação (ABE) integrando seu Conselho Diretor. Foi um dos principais articuladores do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova que seria publicado em 1932, bem como das Conferências Nacionais de Educação promovidas pela ABE, tendo sido relator de várias delas. Ainda em 1931, retorna à Diretoria de Instrução, depois Secretaria de Educação, incorporando-se à equipe de Anísio Teixeira que implementava um programa de grandes transformações educacionais no Distrito Federal. Em 1932, foi efetivado como professor de escolas técnicas secundárias do município do Rio de Janeiro. Lecionou História e Filosofia da Educação na Escola Normal de Niterói e no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Trabalhou como inspetor de ensino de 1933 a 1937.

Assumiu em 27 de janeiro de 1936 a Superintendência de Educação de Adultos do Distrito Federal, permanecendo no cargo até 14 de fevereiro de 1936, menos de um mês, quando foi preso sob a acusação de ministrar curso de orientação marxista para operários da União Trabalhista. Ficou na prisão durante um ano e quatro meses, junto com outros intelectuais, por suas idéias políticas, no ambiente das perseguições após a Intentona Comunista. Em 1938, foi aprovado em concurso para técnico de educação, indo integrar o quadro de profissionais do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, sob a direção de Lourenço Filho, onde chefiou as seções de “Documentação e Intercâmbio” e de “Inquéritos e Pesquisas”. Em 1939 participou dos Cursos “Critical Problem in Secundary Education”, promovido pela Universidade da Pensylvania no Rio de Janeiro e “Public School Administration and Social Interpretate”, na Universidade de Michigan. Esteve também na União Soviética em viagem de observação do sistema educacional.

Cabe ressaltar que, nos idos de 1933 e 1934, Paschoal Lemme já havia feito opção clara pelas teses fundamentais da Filosofia Marxista, sobretudo em seus aspectos humanísticos, contra a exploração do homem pelo homem, tendo sido, a rigor, o primeiro educador marxista brasileiro.

Seu pensamento pedagógico é marcadamente progressista, tendo sido defensor do ensino público universal, gratuito e obrigatório, como responsabilidade básica do Estado. Sua tese central é a de que não existe educação democrática e não ser numa sociedade democrática.

Foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Nacional de Mérito Educativo (1993) e com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Fluminense (1995) assim como pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

Educadores do Brasil: Paulo Freire 6 de agosto de 2009

Filed under: Educadores do Brasil — José Antonio Küller @ 7:17 pm
Tags: , , , , , , , , ,
 

 A Paulo Freire….

 

 

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente…..

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino…..

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e pode ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa…..

 

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor….

Peço licença para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura…..

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler…..

 

Santiago do Chile,
primavera de 1964.
Thiago de Mello
In, Faz Escuro Mas Eu Canto, 1998
Editora Bertrand Brasil Ltda
Rio de Janeiro – RJ – Brasil
….

 

Educadores do Brasil: Eurípedes Barsanulfo 6 de julho de 2009

Filed under: Educadores do Brasil — José Antonio Küller @ 12:53 pm
Tags: , , , ,
 

 

Colégio Allan Kardec

Colégio Allan Kardec - Sacramento (MG)

José Pacheco é o idealizador  da Escola da Ponte, uma escola portuguesa na qual os estudantes aprendem sem salas de aula, divisão de turmas ou disciplinas. Em entrevista para UOL Educação, José Pacheco fala que, ao pesquisar boas iniciativas educacionais brasileiras, tomou contato com uma série de educadores desconhecidos pelo grande público e mesmo pelos educadores brasileiros. Um deles é Eurípedes Barsanulfo (1880-1918). Afirma Pacheco:

 

“Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.”

  

Também não conhecia Eurípedes Barsanulfo e sua obra. Pesquisando sobre ele, encontrei muita coisa interessante, mas ainda nada muito específico sobre as características de seu projeto educacional. Compartilho, para quem se interessar, uma pequena biografia e um vídeo sobre ele.

  

 

Eurípedes Barsanulfo [1]

Nasceu e viveu em Sacramento, Minas Gerais, de 1880 a 1918, tendo falecido na epidemia de gripe espanhola. Eurípedes era de família pobre, inserido num contexto rural e católico. Destacou-se desde cedo por sua capacidade intelectual e liderança na comunidade. Teve oportunidade de estudar no Colégio Derwil de Miranda, cujo diretor, que dava nome à escola, havia freqüentado o famoso Colégio Caraça. Derwil lhe passou a cultura herdada dos padres lazaristas, mas não os seus métodos autoritários e punitivos. Eurípedes iria se afastar ainda mais da proposta pedagógica, iniciando algo inédito na região e, mesmo, no Brasil.

Na adolescência e na primeira juventude, participou de várias atividades religiosas, políticas, artísticas e sociais na cidade. Fundou um grupo de teatro, a Gazeta Sacramentana, a Associação Beneficente São Vicente de Paulo e junto com outros professores o Liceu Sacramentano. Elegeu-se vereador em 1904 e exerceu dois mandatos. Como membro da Comissão de Instrução Pública, lutou pela implantação de escolas públicas na cidade e pela laicização do ensino. Trouxe a primeira estrada de ferro a Sacramento e militava pela melhoria das condições de higiene e de saúde da população.

No mesmo ano em que foi eleito vereador, converteu-se ao espiritismo, tornando-se fervoroso adepto da doutrina de Allan Kardec. Entra em polêmica com a Igreja Católica, incluindo os bispos da região, que antes o viam com bons olhos. Funda em 1907 o Colégio Allan Kardec, uma escola gratuita, onde aplica uma proposta inovadora de educação. Era uma escola ativa, sem recompensas e punições, com muita afetividade e atividades éticas de que os alunos participavam. Eurípedes era famoso como médium receitista, aviando em torno de mil receitas mediúnicas por dia para doentes do Brasil inteiro. É considerado o iniciador da Pedagogia Espírita no Brasil e no mundo.

(Ver INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes. Bragança Paulista, Editora Comenius, 2004 e NOVELINO, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. Araras, IDE, 1981.)


 
[1] Verbete preparado por Alessandro Cesar Bigheto
  

 

 

 

Eurípedes Barsanulfo: Educação, Amor e Mediunidade

 

Educadores do Brasil: Maurício Tragtenberg 31 de maio de 2009

Postamos abaixo pequenos excetos de um artigo de Antônio Ozaí da Silva: Maurício Tragtenberg e a Pedagógia Libertária. O texto começa assim:

Nosso objetivo é resgatar o pensamento político-pedagógico de Maurício Tragtenberg. De um lado, a crítica incisiva que desvenda o modelo pedagógico burocrático fundado na vigilância e na punição, na relação de dominação, no saber formal transformado em mercadoria de consumo, uma pedagogia que predomina na maioria das nossa escolas e universidades. De outro, o itinerário de uma alternativa pedagógica libertária, recuperada e sintetizada na práxis do educador contemporâneo. No final do percurso, a certeza da sua atualidade.
Alguns excertos do desenvolvimento do trabalho de Ozaí:
“A fusão de um saber, constantemente acumulado e renovado pela própria natureza da instituição escolar, com as técnicas disciplinadoras-burocráticas herdados dos presídios avultam os efeitos da concentração do poder de dominação e controle. A escola, através do saber, aperfeiçoa os meios de controle, podendo dar-se ao luxo de dispensar o recurso à força. A própria prática de ensino pedagógica-burocrática permite-o, na medida em que reduz o aluno ao papel de mero receptáculo de conhecimento, fixa uma hierarquia rígida e burocrática na qual o principal interessado encontra-se numa posição submissa e desenvolve meios para manter o aluno sob vigilância permanente (diário de classe, boletins individuais de avaliação, uso de uniformes modelos, disposição das carteiras na sala de aula, culto à obediência, à superioridade do professor etc.).
Nesta estrutura escolar, o poder de punir é legitimado e concebido como natural. Como salienta Tragtenberg: “Na escola, ser observado, olhado, contado detalhadamente passa a ser um meio de controle, de dominação, um método para documentar individualidades. A criação desse campo documentário permitiu a entrada do indivíduo no campo do saber e, logicamente, um novo tipo de poder emergiu sobre os corpos”. (Idem)”
(…)
“Os próprios alunos se tornam agentes fomentadores deste sistema pedagógico. Imbuídos dos valores que enfatizam o individualismo e não a coletividade, a competição e não a solidariedade, a autoridade e não a liberdade, o saber formal-professoral e não o saber como algo socialmente construído, doutrinados e viciados desde a infância em procedimentos que ora legitimam a pedagogia-burocrática, ora são formas negativas de resistência, os alunos têm dificuldades de assumirem-se enquanto sujeitos ativos do processo educativo, em estabelecer uma relação não-autoritária com seus professores, em desenvolverem processos de aprendizagem que objetivem a produção do conhecimento e não apenas a memorização de conteúdos.”
(…)
“A alternativa pedagógica libertária
Não sejamos pessimistas. Se a realidade atual exacerba os elementos críticos da pedagogia burocrática apontados por Tragtenberg, ainda é possível pensar e agir de forma diferenciada. O mestre nos oferece as pistas para uma nova pedagogia fundada na solidariedade, na autonomia e liberdade dos indivíduos e na autogestão. Trata-se da reapropriação do saber pelos trabalhadores, de desnudá-lo e resgatar seu caráter social e coletivo. Não mais o saber formal ingressado pela instituição escolar: a própria escola precisa ser transformada.”
Por fim um excerto da conclusão:

“Tragtenberg firma-se pelo exemplo de coerência entre o discurso e a prática. Seu relacionamento com os sindicalistas combativos, as oposições sindicais, os trabalhadores e seus colegas de trabalho e os estudante comprova-o. Seus artigos na coluna “Batente” e em outros jornais revelam uma permanente valorização do conhecimento operário, uma constante disposição, rara entre nossos intelectuais, de ‘dar uma força’, de servi-lo. Seu carinho e dedicação aos intelectuais orgânicos dos trabalhadores é outra prova viva de uma pedagogia fundada na verdade e na convicção de que os indivíduos são capazes de se apropriarem do saber.”

Informamos que as ilustrações foram incluídas por nós. Para quem a leitura desses excertos sobre Maurício Tragtenberg foi estimulante, o acesso ao texto integral pode ser obtido clicando aqui.

 

Educadores do Brasil – Fernando de Azevedo 24 de abril de 2009

Este artigo, escrito por um velho amigo, foi originalmente publicado no SciELO Brasil, pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Por Nelson Piletti

No inicio dos anos 70, recém-chegado a São Paulo, forçado a deixar o Rio Grande por razões políticas — demitido que fôra pelas escolas em que lecionava e pelo Banco do Brasil — andava à procura de um tema para a minha dissertação de mestrado quando me deparei com uma notícia de jornal: Fernando de Azevedo doara o seu arquivo pessoal ao Instituto de Estudos Brasileiros. Era o fim do meu problema, o início de intermitentes e profícuos mergulhos na obra do insigne educador e sociólogo, dos quais invariavelmente emergia com o espírito revitalizado por novas e instigantes descobertas.

Desde então, por mais que tivesse tentado, orientando minhas investigações para outros temas, nunca mais consegui me libertar de sua presença, fascinado por sua controversa figura ou premido pelas circunstâncias. A partir da dissertação de mestrado, restrita ao estudo da reforma educacional por ele promovida no Distrito Federal, entre 1927 e 1930 — marco fundamental entre as inúmeras tentativas de renovação do nosso ensino — ampliei a abrangência das minhas pesquisas, na tentativa de compreender a sua trajetória intelectual e humana, que procurei tornar conhecida no trabalho Fernando de Azevedo: a educação como desafio, elaborado para o INEP em 1984, décimo aniversário de sua morte, e em vários artigos publicados em 1994, ano do centenário do seu nascimento.

Hoje, tomado de perplexidade ante a situação nacional, em particular no campo educacional, em todos os seus níveis e modalidades, volto a Fernando de Azevedo, quiçá em busca de alguma luz que ilumine nossos caminhos, e me pergunto: com base em minhas limitadas investigações e reflexões, que perfil poderia traçar de Fernando de Azevedo? Quem foi o homem Fernando de Azevedo?

Fernando de Azevedo foi um homem extremamente organizado e meticuloso. Foi a primeira impressão que tive, ao entrar em contato com o seu arquivo e folhear os dez grossos volumes contendo recortes de jornais, aproximadamente sete mil matérias sobre a sua administração à frente da Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal. E todos caprichosamente organizados em ordem cronológica, identificados pelo nome do jornal e pela data de publicação, escritos de próprio punho por Fernando de Azevedo.

Fernando de Azevedo foi um homem obcecado pelo trabalho. E aqui recorro ao testemunho de sua filha Lollia, para quem o pai foi “um trabalhador incansável, um batalhador: quando chegava em casa, depois de falar conosco e nos beijar, afastávamo-nos indo brincar onde não nos ouvisse. ‘Seu pai precisa trabalhar’, como minha mãe dizia, sempre vigilante para que ele tivesse a paz necessária”. E mais: “Escreveu até o fim da vida. Conseguia escrever mesmo sem enxergar, depois eu lia o que ele havia escrito, corrigia ou modificava se assim ele achasse necessário”.

Fernando de Azevedo foi um homem obstinado, que, ainda de acordo com Lollia, “até o fim trabalhou e lutou pelos seus ideais”. Ou, no dizer de Antônio Cândido, “um exemplar raro de homem que gostava da responsabilidade e cuja lucidez é aguçada, não embotada, pelas dificuldades, porque elas espicaçam o seu ânimo combativo”. Sua obstinação ficou evidente, por exemplo, na reforma educacional que promoveu no Distrito Federal, quando lutou tenazmente para modernizar o sistema de ensino, enfrentando poderosos interesses fincados no Conselho Municipal, a famosa gaiola de ouro, quando chegou a sofrer um atentado. No calor dos debates, diante da intransigência dos intendentes situacionistas, que relutavam em apoiar a reforma, emitiu uma explosiva nota afirmando a certa altura: “O Diretor de Instrução elaborou um projeto de lei e o ofereceu ao Conselho Municipal, atendendo a um convite com que o honraram as comissões reunidas de Instrução, Justiça e Orçamento. Se nada vale, deve ser rejeitado; se tem defeitos, deve ser emendado; se é obra digna de apreço, deve ser aprovada. Supor o Diretor de Instrução Pública capaz de ceder a qualquer pressão ou transação é desconhecê-lo, senão injuriá-lo”. Os princípios da reforma — escola única, não uniforme, mas adaptada ao meio; escola do trabalho, ao mesmo tempo conteúdo curricular e método pedagógico; e escola-comunidade ou escola do trabalho em cooperação — continuam, em nossa realidade educacional, ideais em busca de realização.

Fernando de Azevedo foi um homem de pensamento, com múltiplos interesses intelectuais, para quem nada do que é humano era estranho. Da educação física — área em que foi especialista, tendo escrito uma tese pioneira em 1915 — às ciências sociais, trajetória que completou em 20 anos, transitou pelo ensino de latim e de psicologia, pela crítica literária, pela investigação sobre a arquitetura colonial e sobre a educação paulista, pela reforma educacional. Estudioso e amante dos clássicos, nunca escondeu o seu fascínio pelas ciências modernas, que procurou incluir nos currículos escolares, tanto que, nos anos 50, organizou a obra As ciências no Brasil, cuja segunda edição acaba de sair pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1994. Entre 25 livros, a maioria na área da educação, escreveu obras pioneira no campo das ciências sociais como Princípios de Sociologia (193S), Sociologia, Educacional (1940) e Canaviais e engenhos na vida política do Brasil (1948).

Segundo o testemunho insuspeito de Paschoal Lemme, Fernando de Azevedo foi “urna das mais altas expressões da inteligência e da cultura do Brasil moderno”, destacando-se por três contribuições fundamentais: “1. A grande reforma do ensino no antigo Distrito Federal (1927-1930) (…), reforma essa que, segundo as opiniões mais autorizadas, foi o marco inicial do processo de modernização do ensino no Brasil. 2. O Manifesto dos pioneiros da educação nova (1932) (…), documento único na historia da educação brasileira. (…) Subscrito por um grupo dos mais eminentes educadores e intelectuais, mantém até hoje sua validade. 3. A monumental obra A cultura brasileira, redigida inicialmente para servir de introdução ao recenseamento de 1940, tornou-se de consulta obrigatória para quem deseja conhecer a evolução da cultura nacional, em todos os seus aspectos” (Carta ao Jornal do Brasil, 1976). A estas três poderíamos acrescentar uma quarta contribuição, que foi a sua importante participação no processo de fundação da Universidade de São Paulo (1934), destacando-se como um lutador incansável pela implementação do verdadeiro espírito universitário, plenamente identificado com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como anima mater da Universidade.

Fernando de Azevedo foi um homem de ação, tendo exercido vários cargos administrativos, a maioria na esfera educacional, entre os quais podem ser destacados: diretor-geral da Instrução Pública do Distrito Federal (1927-1930); diretor-geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo (1933); diretor do Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (1933-1938); diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1941-1943); chefe do Departamento de Sociologia e Antropologia da FFCL da USP (1947); secretário de Educação e Saúde do Estado de São Paulo (1947); diretor do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo (1956-1960); secretário de Educação e Cultura do Município de São Paulo (1961).

Fernando de Azevedo foi, acima de tudo, um homem integro, um humanista na verdadeira acepção da palavra. Por isso, um homem permanentemente atormentado, “de espírito inquieto e insatisfeito consigo mesmo e com quase tudo que vê à volta de si”, como reconheceu em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1968. Por isso, um homem que lutou pelo desenvolvimento do humanismo, o qual, em suas palavras, “não está na matéria que ensinamos (seja qual for, letras ou ciências), mas no espírito que nos anima no ensino de qualquer disciplina e na maneira de ensiná-la”. Por isso, que o digam Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Maria Isaura Pereira de Queiroz, seus assistentes na USP, o seu apoio àqueles que com ele trabalharam, a sua solidariedade ativa para com os colegas, levando-o a comparecer espontaneamente, apesar de aposentado, para acompanhar de perto os depoimentos dos professores convocados para depor em inquérito policial militar, em 1964.

Finalizo com Antonio Cândido, sem dúvida a melhor companhia neste caso: “Como seu aluno e em seguida seu colaborador de muitos anos; como seu discípulo e amigo, quero que este testemunho sirva principalmente para transmitir às gerações novas a lembrança de um homem insigne, que possuía a retidão escarpada dos lutadores e a ternura afetuosa dos grandes corações”.

Nelson Piletti é professor do Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação da Faculdade de Educação da USP. É autor de A Reforma Fernando de Azevedo — DF, 1927-30 (FE-USP, Coleção Estudos e Documentos nº 20,1982) e Fernando de Azevedo: a educação como desafio (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP-MEC, Brasilia, 1985
 

 
%d blogueiros gostam disto: