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Escola precisa se conectar com demandas dos jovens 17 de junho de 2015

Filed under: Sem categoria — José Antonio Küller @ 3:13 pm

Clipping Educacional – 17.06.2015

Carolina Lenoir – Porvir – 16/06/2015 – São Paulo, SP

Uma nova pesquisa realizada com estudantes, professores universitários, empregadores e líderes da sociedade civil revela a necessidade de aprofundar o debate em torno de um novo modelo educacional. O estudo chamado Projeto de Vida, realizada pela Fundação Lemann, com apoio técnico do Movimento Todos pela Educação, mostra que existe uma desconexão preocupante entre o que é ensinado na escola atualmente e o que os jovens precisam saber para concretizar os seus diferentes projetos de vida.

Para a realização da pesquisa, foram feitas 126 entrevistas com jovens recém-formados no ensino médio – em sua maioria egressos de escolas públicas -, professores universitários, empregadores e líderes da sociedade civil de todas as cinco regiões do Brasil. Em comum entre os diferentes grupos de entrevistados está a percepção de que a escola tem falhado na preparação de seus alunos para a vida adulta. São muitas as queixas em relação a problemas relativos a comunicação, raciocínio lógico, conhecimentos básicos matemáticos e postura profissional vindas de professores universitários e empregadores, que recebem e convivem com os jovens recém saídos da escola, mas há também uma reflexão perturbadora feita pelos ex-alunos. “São os próprios jovens que estão afirmando que não conseguem aplicar seus aprendizados quando confrontados com diversas situações do cotidiano”, afirma o pesquisador Haroldo Torres, responsável pelo estudo.

São jovens entre 20 e 21 anos, de diferentes perfis étnicos e socioeconômicos, que se destacaram pelas notas acima da média no Enem, já estão empregados ou entraram em uma faculdade, mas ainda assim se sentem sentem mal orientados e pouco preparados para lidar com seus desafios diários. Para os professores universitários e empregadores, as lacunas de formação vão além de os jovens não saberem escrever um e-mail de trabalho, expor argumentos oralmente na faculdade ou interpretar gráficos simples de produção. “Nas entrevistas, apareceu de forma espontânea e com certa força a preocupação com as habilidades socioemocionais, especialmente atitude, proatividade, comprometimento, curiosidade, persistência”, explica Haroldo.

De acordo com a pesquisa, as lacunas percebidas tanto pelos jovens quanto por seus empregadores e professores são de natureza cognitiva, socioemocional e comportamental. No campo das deficiências cognitivas, destacam-se as relacionadas à língua portuguesa. No geral, os jovens têm muita dificuldade em compreender instruções orais e escritas, expressar-se com sentido, correção e adequação contextual tanto na fala ou quanto em mensagens escritas simples e interpretar ou expor argumentos em situações de comunicação mais complexas.

A matemática também é uma área preocupante, com queixas de todos os grupos em relação à dificuldades para realizar as quatro operações básicas, calcular percentagens, interpretar gráficos e tabelas e elaborar planilhas, além da falta de raciocínio lógico e de educação financeira para administrar o próprio salário. Já no campo das habilidades socioemocionais, destaca-se o “grande receio dos jovens em mostrar que não sabem algo e de fazer perguntas para sanar suas dúvidas. Junto dessas críticas – e, em alguns casos, derivadas delas – surgem outras, como falta de curiosidade, autonomia, comprometimento, foco, resiliência, disposição para correr riscos e se posicionar”, frisa um trecho da pesquisa.

Lições e caminhos

Além do diagnóstico dos problemas que têm impedido os jovens de concretizar seus anseios pessoais e profissionais, a pesquisa também apresenta alguns pontos importantes para o debate de um novo modelo educacional. Os jovens entrevistados insistem na necessidade de métodos de ensino mais atuais e citam como boa referência em metodologia o professor de cursinho, por dar exemplos práticos da aplicabilidade dos conteúdos e desenvolver aulas mais dinâmicas, divertidas e focadas. Para eles, músicas, vídeos, leituras de histórias e conversação devem ser usados como instrumentos de estímulo para o aprendizado, por exemplo, de idiomas, e atividades extracurriculares, como educação física e artística, devem ser exploradas como possibilidade de desenvolver a criatividade, autoconfiança, disciplina, liderança e capacidade de trabalhar em equipe.

Além disso, eles gostariam de ter recebido ajuda no encaminhamento profissional, por meio de visitas a faculdades, contato com alunos universitários e conversas com psicólogos. Também acreditam ser importante ter noções sobre o mundo corporativo antes de ingressar no mercado de trabalho, com aulas sobre como estruturar projetos, montar slides, trabalhar em equipe e se portar numa entrevista de emprego, por exemplo.

Para os professores universitários, empregadores e representantes de ONGs que participaram da pesquisa, a tecnologia é uma janela de oportunidade não só para o engajamento nos estudos, mas para o aprimoramento dos conhecimentos. Eles elogiam as habilidades dos jovens no uso de recursos tecnológicos e a capacidade de se adaptar rapidamente a novas plataformas, mas destacam que ainda falta o domínio de algumas ferramentas específicas, como o Excel, bastante valorizado no mercado de trabalho, e o uso intensivo do celular e da internet para assuntos pessoais durante as aulas e o expediente de trabalho.

A pesquisa, que pretendeu fazer um mapeamento do legado do ensino básico para os jovens brasileiros, traz também algumas lições úteis à elaboração de uma Base Nacional Comum. “Os resultados da pesquisa contribuem para o debate sobre o que, afinal, a sociedade espera que os alunos aprendam na escola, para que consigam ter uma vida plena e produtiva após a conclusão da educação básica”, afirma Denis Mizne, diretor Executivo da Fundação Lemann.

Para isso, a pesquisa contou com a contribuição e análise das especialistas em currículo Delaine Cafiero Bicalho, doutora em Linguística e professora da Faculdade de Letras da UFMG, e Maria Ignez Diniz, doutora em Matemática e professora do Instituto de Matemática e Estatística, da USP. De acordo com as especialistas, os resultados mostram que o currículo atual é conteudista e não desperta interesse nos jovens. Especialmente as entrevistas dos jovens reforçam que os currículos que predominam nas escolas atualmente são extensos, pouco aprofundados e não favorecem a integração entre as diferentes áreas do conhecimento. Além disso, disciplinas diferentes requerem diferentes formas de raciocínio e reflexão.

Para elas, a Base Nacional Comum deve detalhar não apenas os conhecimentos a serem trabalhados nas escolas, mas também quais habilidades os alunos devem desenvolver com os conceitos e conteúdos ensinados. Além disso, ela deve garantir uma integração mais clara entre as diferentes áreas, para que os conhecimentos e as habilidades sejam trabalhados de forma mais integrada e menos segmentada. “Na Base Nacional Comum, é desejável que a organização dos conteúdos seja hierarquizada, mas as habilidades que esses conteúdos mobilizam precisam ser construídas em rede. A Base precisa apresentar com clareza a relação das habilidades com os conceitos e conteúdos a serem ensinados”, destaca um trecho da pesquisa.

Especialmente em relação às duas áreas mais preocupantes quanto às lacunas cognitivas de aprendizado – língua portuguesa e matemática -, as especialistas destacaram pontos que devem ser considerados para a elaboração da Base Nacional Comum. De acordo com Delaine, o foco do ensino da língua portuguesa precisa estar no ensino de estratégias para resolver problemas comunicativos. “A língua portuguesa deve ser ensinada como um recurso que se adapta a diferentes usos, não como algo fixo e descolado da realidade. Um caminho para se ensinar os diversos usos da língua ao longo dos anos de ensino básico é organizar um currículo baseado no uso de textos variados, tanto os que circulam no cotidiano quanto os da literatura.” Sobre o hábito da leitura, a especialista aponta que o fenômeno dos best-sellers juvenis demonstra que uma boa parte dos jovens já é leitora. “É preciso apenas motivar seu interesse por outros estilos textuais. Para além de desenvolver a habilidade de leitura, uma base comum deve se preocupar em formar leitores de literatura – inclusive a clássica.”

Em relação à matemática, Maria Ignez destaca que tanto os jovens quanto seus professores e empregadores veem a matemática como um conhecimento para se aplicar em situações-problema. “Os jovens entendem como situações-problema tarefas simples exigidas no trabalho ou na faculdade, como aplicar descontos e ler planilhas. Em sua visão, elas deveriam ter sido ensinadas na escola e não foram e, portanto, falta-lhes repertório. Já o professores e empregadores entendem por situações-problemas tarefas novas e relativamente complexas propostas aos jovens, como controlar o próprio salário, argumentar a partir de dados quantitativos, usar raciocínio lógico e abstrato para esquematizar um problema e propor soluções. Para resolvê-las, os jovens deveriam ser capazes de selecionar e mobilizar conhecimentos ensinados na escola, ou seja, na perspectiva dos professores e empregadores, falta aos jovens mais do que um banco de conhecimentos. Falta-lhes uma grande competência que lhes permita articular teoria e prática por conta própria.”

Para a especialista, essa grande competência não se desenvolve naturalmente e precisa ser ensinada pela escola, por meio de uma série de etapas: identificar o problema; mobilizar as informações necessárias para entendê-lo e resolvê-lo; estabelecer uma estratégia de ação para solucioná-lo; aplicar essa estratégia; monitorá-la e tirar uma lição de todo esse processo (a consciência do aprendizado). “Se cada uma dessas etapas não é ensinada, o aluno pode fracassar por que não sabe que tipo de conhecimento precisa mobilizar em determinada situação. A resolução de problemas deve ser uma competência prevista na Base Nacional Comum como objetivo de todas as séries e com níveis de complexidade adequados a cada etapa da escolaridade. E precisa ser ensinada de forma intencional, não subentendida”.

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