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CAPACITAÇÃO DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS (I) 22 de julho de 2009

 

O programa de Formação e Desenvolvimento da Empregada Doméstica foi desenvolvido pela Germinal para o SENAC de São Paulo, há cerca de 10 anos atrás. Na época de sua implementação, o Programa foi objeto de inúmeras reportagens da grande mídia, que estamos procurando recuperar. Por ora, apresentamos a estrutura curricular do Programa.

 

I. APRESENTAÇÃO

Cas de Dr. Paul Gachet em Auvres-Sur-Oise - Cézanne

Cézanne - Casa de Dr. Paul Gachet en Auvres-Sur-Oise

“Em suma, a casa natal gravou em nós a hierarquia das diversas funções do habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa; e todas as outras não passam de variações de um tema fundamental. A palavra hábito está demasiado desgastada para exprimir essa ligação apaixonada entre o nosso corpo que não esquece e a casa inolvidável” (Bachelard, Gaston, A poética do espaço, São Paulo, Martins Fontes, 1989, p.33).

 

É grande o número de pessoas empregadas em ocupações domésticas. O Sindicato dos Trabalhadores em Serviços Domésticos estimava, em 1999, ser de 500.000 profissionais a base da categoria. A quase totalidade dessas pessoas profissionalizaram-se na prática, tendo como professores os próprios patrões ou outros empregados domésticos. A origem primeira e a base desse saber é, quase sempre, a própria casa do agora profissional. Nela, por observação e prática direta, habilidades como arrumar, limpar, lavar e passar foram sendo construídas desde a infância.

 

Determinadas circunstâncias problematizam hoje tal processo de formação. A ampliação das diferenças de renda, refletidas nas residências do empregado e do empregador, dificultam a transferência dos conhecimentos adquiridos no cotidiano para a situação profissional. A crescente profissionalização das mulheres das classes média e alta, por outro lado, afasta do cenário da casa a presença do mestre antes de plantão. A demanda pelo profissional já treinado aumenta. A qualificação é um requisito cada vez mais exigido para o primeiro emprego e, portanto, um diferencial para aquele que o procura. Para os já empregados, um acréscimo de qualificação enseja o emprego em residências de pessoas de melhor poder aquisitivo e incrementos salariais significativos.

 

a) Natureza (Peculiaridade) da ocupação e da formação

Os serviços domésticos tem um diferencial em relação a outras atividades profissionais: uma superposição de espaços. O espaço do exercício profissional do trabalhador doméstico coincide com o espaço de moradia de seu(s) empregador(es) e rebate sobre a moradia do trabalhador, muitas vezes negando-a.

 

Existe uma separação e uma crescente diferença entre habitar a minha casa (e cuidar dela) e habitar a casa do patrão (e os cuidados dela). Lá não se vive como aqui. Aqui não se mora como lá. Tais diferenças são técnicas em um primeiro plano. Diferentes equipamentos, produtos e processos são utilizados nos trabalhos cotidianos de conservação, limpeza e arrumação, por exemplo. A base conceitual e científica das técnicas, equipamentos e procedimentos utilizados no trabalho funda um segundo plano de diferenças.

 

Leo Birk, ao constatar, em sua pesquisa preliminar ao Programa Senac-SP em Ocupações Domésticas, que as causas da maioria das demissões do empregado doméstico vinculam-se às dimensões profissionais relacionadas à ética e às relações humanas no trabalho, identifica outros planos de diferenças. Se somos o diagrama das funções de habitar a casa natal (Bachelar), algo mais profundo que o hábito mapeia o meu estar na moradia e a minha visão do uso do espaço residencial. Entranhadas no ser, as funções de morar fazem parte da identidade. No espaço profissional do trabalhador doméstico, as diferenças entre a sua perspectiva de morar e as da família residente refletem as diferenças de ser. Como decorrência, as diferenças das casas de origem e as das funções de habitar refletem-se em conflitos nas relações travadas no espaço profissional.

 

Tais planos derivam de um fundo mais abrangente de crescentes diferenças sociais, econômicas e culturais que precisam ser percebidas, analisadas e trabalhadas em um programa de formação. Assim, a tarefa fundamental de um programa de formação de empregados domésticos é, só ao primeiro e superficial olhar, a desconstrução e reconstrução daquilo que Bachelard chamou de “funções do habitar”. Vistos os múltiplos planos de diferenças e a relação funções de morar/identidade a perspectiva de desconstrução/reconstrução das funções de morar, como central no programa de formação, é limitada. É necessário um outro foco educacional.

 

b) Foco Educacional

Chagall, Grey House, 1917A partir da abordagem vivencial dos conflitos e contradições decorrentes da convivência com dois universos similares e paradoxalmente diferentes e das suas “funções do habitar”, o programa buscará, no seu todo, possibilitar a construção do papel profissional do empregado doméstico por ele mesmo. Essa busca deverá resultar não apenas no desenho do papel profissional a partir das expectativas externas de exercício do papel, mas sobretudo na capacidade individual consciente de nele situar-se, interagir e crescer.

 

Da construção pessoal do papel, decorrerá a capacidade de agir com iniciativa, autonomia e profissionalismo, conhecendo o universo de trabalho e distinguindo-o do próprio universo residencial, identificando as diferenças, as origens dessas diferenças, as implicações nas relações pessoais, profissionais e de trabalho delas decorrentes, as próprias capacidades e limites e atuar da forma mais construtiva possível em cada situação, para si mesmo e para os outros, incluindo a perspectiva de ampliação do exercício da cidadania no trabalho e fora dele.

 

Na dinâmica conflituosa do dia-a-dia, o desempenho autônomo e a contínua construção do papel profissional envolve o caminho do autodesenvolvimento e da superação de obstáculos, de diferentes formas. Requer a capacidade de estabelecer relações respeitando e transcendendo as diferenças. Implica na adesão pessoal a um código de ética refletido no comportamento profissional. E, ainda, na busca da transparência na comunicação necessária à prevenção de conflitos. O resultado geral buscado será, além do contínuo crescimento pessoal e profissional, a melhoria da qualidade de vida para todos, nos dois ambientes.

 

No desenvolvimento do Programa, buscar a construção do papel profissional e seu desempenho autônomo significa adotar uma linha educacional/metodológica orientada para o desenvolvimento de competências humanas e profissionais básicas, tais como: autonomia no pensar e no fazer; expressão individual de idéias e valores: compreensão da realidade imediata e mediata; autoconhecimento; aprender a aprender; organizar e planejar o trabalho; avaliar e crescer com os erros e acertos; etc. Essas competências básicas serão trabalhadas não apenas no núcleo central, mas também em todas as estações de trabalho e servirão de base sobre a qual as habilidades específicas para o exercício profissional serão construídas.

 

c) Âmbito do programa

O programa Formação e Desenvolvimento do Empregado Doméstico dirige-se ao profissional polivalente, aquele que executa tarefas diversificadas, especialmente as de limpar e arrumar, cozinhar e servir, lavar e passar. O programa não pretende esgotar toda a gama de ocupações da área, que são especializadas em muitos casos e que atendem a parcelas específicas de mercado. A intenção é buscar a multifuncionalidade baseada na faixa das atividades mais requisitadas e nos atributos do profissional comumente procurados. Para a especialização; como por exemplo as de cozinheira, babá ou copeira; cabem programas ou módulos de aprendizagem específicos que poderão ser desenvolvidos posteriormente.

 

house-drawings in - derekmccreaO Programa de Formação do Empregado Doméstico, no entanto, será dimensionado de forma a proporcionar ao participante o embasamento necessário para que ele continue o seu aprendizado na prática e se especialize trabalhando, desenvolvendo estratégias para o aproveitamento das oportunidades concretas de aprender fazendo em seu cotidiano profissional.

 

 

II. OBJETIVOS GERAIS

 

1) Oferecer ao mercado de demanda por trabalho doméstico profissionais preparados para assumir satisfatoriamente seu papel profissional, tanto do ponto de vista do empregador quanto do próprio profissional, considerando os âmbitos técnico, ético e das relações humanas no trabalho.

 

2) Oferecer, ao profissional da área formado na prática e ao candidato ao primeiro emprego, um Programa de Formação que lhes proporcione a construção de seu papel profissional e social e os capacite a desempenhá-lo da melhor forma possível, buscando bem estar e qualidade de vida para si e para as pessoas que o cercam no ambiente profissional, familiar e social.

 

3) Oportunizar, ao longo de todo o programa, a construção, pelos participantes, de um código de ética , de comportamento profissional e de relações de trabalho dos trabalhadores domésticos, a partir de seus valores, vivências e conhecimentos e da legislação vigente.

 

4) Desvendar a realidade de mercado de trabalho da profissão econfrontá-la com as expectativas dos participantes de forma que possam ajustá-las às suas possibilidades de realização, atualizando perspectivas e evitando possível frustração.

 

5) Proporcionar, através da metodologia e atividades programadas, oexercício de habilidades básicas para a comunicação, incluindo: leitura, escrita, saber ouvir e expressão corporal e oral.

 

 

III. ORGANIZAÇÃO DO PROGRAMA

 

Consideramos para a organização do programa, dois aspectos fundamentais:

 

a) A necessidade de um eixo essencial norteador de todo o programa, enfocado na construção do papel, na ética e comportamento profissional, nas relações humanas e relações de trabalho, no exercício da cidadania. Esse eixo será constituído por um núcleo central entremediado por estações de trabalho para o desenvolvimento de habilidades específicas.

 

b) A opção de formar num primeiro momento o empregado doméstico polivalente; aquele que é o único responsável pela realização de todos os serviços domésticos. Além de ser este o profissional mais procurado no mercado, a formação multifuncional possibilita a posterior especialização, seja na prática ou através de curso complementar. Consideramos, para o desenvolvimento do profissional polivalente, três estações de trabalho: Limpeza e Arrumação de Casas, Cozinhar e Servir, Lavar e Passar.

 

 

Modalidade

Carga horária prevista 

 

 

a) Núcleo Central 

60 horas

 

 

b) Estações de Trabalho

 

    b1. Limpeza e Arrumação de Casas

30 horas

    b3. Lavar e Passar

20 horas

    b2. Cozinhar e Servir

50 horas

CARGA HORÁRIA TOTAL: 

160 HORAS 

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6 Responses to “CAPACITAÇÃO DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS (I)”

  1. Simone Dias Says:

    Prezados,
    adorei saber do trabalho de vc’s.
    Sou profa da UFPE e estarei ministrando um curso para empregadas domésticas em parceria da UFPE com uma Ong local. Vc’s teriam algum material/textos que pudessem me ajudar a melhorar a qualidade das minhas aulas?
    Atenciosamente,
    Simone Dias
    81-9912-6195

    • vanda j s Says:

      era uma vez um rei que queria um passaro que cantasse muito, entao alguem trouse um passaro e o passaro cantava e o rei falava canta mais o passaro de tanto cantar caio e morreu, moral da historia, comecei trabalhar em um condominio fechado combinei um valor com uma pessoa tres veses por semana so que na primeira semana ja dispensaram a outra deixaram so um dia e depois tirou ela de vez fiquei lavando passando conziando e etc… ate o trabalho de churrasqueira que dizia do caseiro eu tenho que ajudar a fazer. quer dizer eles estao muito preocupado em evoluir os empregados, que os empregados estao evoluindo e os patrois estao regredindo.

  2. Monica Rodrigues Says:

    Por favor,
    Tenho um grande interesse em realizar cursos sobre como ensinar domésticas a serem mais profissionais no quesito : Limpeza do lar abrangendo absolutamente tudo , inclusive cozinhar.
    Existe este curso? Gostaria de informações

    Grata

    Monica

  3. Maria Junqueira Says:

    Boa tarde.
    Sou assistente social , aposentada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e gostaria de ministrar um curso para capacitação e treinamento para empregadas domésticas em minha cidade, no interior de Minas Gerais, tendo em vista a falta de qualificação das mulheres da codade e regiões e a não aceitação das mesmas em casas por este motivo.
    Devido a minha insipiência teórica neste assunto, gostaria de poder contar com a colaboração de vocês no intuito de estarem disponibilizando mateiral teórico para que eu possa utilizar no curso que pretendo viabilizar.
    Agradeço
    Atenciosamente
    Maria Junqueira

    • Maria Junqueira, Simone e Mônica

      Desenvolvemos dois conjuntos de materiais para a formação de empregadas domésticas: um para o SENAC de São Paulo e o outro para a Fundação Bradesco. Por definição contratual, esses materiais pertencem ao SENAC e à Fundação. Assim, não podemos disponibilizá-los. Gostaríamos muito de ajudá-las, mas não podemos. Perdoem-nos.

  4. Somos a CB Consultoria e Servicos, gostamos da iniciactiva pois em Mocambique temos carencia de profissionais qualificados e pensamos que as vossas ideias serao validas para iniciar a formacao de empregadas domesticas. Obrigado


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