Germinal – Educação e Trabalho

Soluções criativas em Educação, Educação Profissional e Gestão do Conhecimento

Educadores do Brasil: Paulo Freire 6 06UTC Agosto 06UTC 2009

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 A Paulo Freire….

 

 

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente…..

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino…..

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e pode ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa…..

 

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor….

Peço licença para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura…..

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler…..

 

Santiago do Chile,
primavera de 1964.
Thiago de Mello
In, Faz Escuro Mas Eu Canto, 1998
Editora Bertrand Brasil Ltda
Rio de Janeiro – RJ – Brasil
….

 

Educadores do Brasil: Eurípedes Barsanulfo 6 06UTC Julho 06UTC 2009

Arquivado em: Educadores do Brasil — José Antonio Küller @ 12:53 pm
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Colégio Allan Kardec

Colégio Allan Kardec - Sacramento (MG)

José Pacheco é o idealizador  da Escola da Ponte, uma escola portuguesa na qual os estudantes aprendem sem salas de aula, divisão de turmas ou disciplinas. Em entrevista para UOL Educação, José Pacheco fala que, ao pesquisar boas iniciativas educacionais brasileiras, tomou contato com uma série de educadores desconhecidos pelo grande público e mesmo pelos educadores brasileiros. Um deles é Eurípedes Barsanulfo (1880-1918). Afirma Pacheco:

 

“Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.”

  

Também não conhecia Eurípedes Barsanulfo e sua obra. Pesquisando sobre ele, encontrei muita coisa interessante, mas ainda nada muito específico sobre as características de seu projeto educacional. Compartilho, para quem se interessar, uma pequena biografia e um vídeo sobre ele.

  

 

Eurípedes Barsanulfo [1]

Nasceu e viveu em Sacramento, Minas Gerais, de 1880 a 1918, tendo falecido na epidemia de gripe espanhola. Eurípedes era de família pobre, inserido num contexto rural e católico. Destacou-se desde cedo por sua capacidade intelectual e liderança na comunidade. Teve oportunidade de estudar no Colégio Derwil de Miranda, cujo diretor, que dava nome à escola, havia freqüentado o famoso Colégio Caraça. Derwil lhe passou a cultura herdada dos padres lazaristas, mas não os seus métodos autoritários e punitivos. Eurípedes iria se afastar ainda mais da proposta pedagógica, iniciando algo inédito na região e, mesmo, no Brasil.

Na adolescência e na primeira juventude, participou de várias atividades religiosas, políticas, artísticas e sociais na cidade. Fundou um grupo de teatro, a Gazeta Sacramentana, a Associação Beneficente São Vicente de Paulo e junto com outros professores o Liceu Sacramentano. Elegeu-se vereador em 1904 e exerceu dois mandatos. Como membro da Comissão de Instrução Pública, lutou pela implantação de escolas públicas na cidade e pela laicização do ensino. Trouxe a primeira estrada de ferro a Sacramento e militava pela melhoria das condições de higiene e de saúde da população.

No mesmo ano em que foi eleito vereador, converteu-se ao espiritismo, tornando-se fervoroso adepto da doutrina de Allan Kardec. Entra em polêmica com a Igreja Católica, incluindo os bispos da região, que antes o viam com bons olhos. Funda em 1907 o Colégio Allan Kardec, uma escola gratuita, onde aplica uma proposta inovadora de educação. Era uma escola ativa, sem recompensas e punições, com muita afetividade e atividades éticas de que os alunos participavam. Eurípedes era famoso como médium receitista, aviando em torno de mil receitas mediúnicas por dia para doentes do Brasil inteiro. É considerado o iniciador da Pedagogia Espírita no Brasil e no mundo.

(Ver INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes. Bragança Paulista, Editora Comenius, 2004 e NOVELINO, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. Araras, IDE, 1981.)


 
[1] Verbete preparado por Alessandro Cesar Bigheto
  

 

 

 

Eurípedes Barsanulfo: Educação, Amor e Mediunidade

 

Educadores do Brasil: Maurício Tragtenberg 31 31UTC Maio 31UTC 2009

Postamos abaixo pequenos excetos de um artigo de Antônio Ozaí da Silva: Maurício Tragtenberg e a Pedagógia Libertária. O texto começa assim:

Nosso objetivo é resgatar o pensamento político-pedagógico de Maurício Tragtenberg. De um lado, a crítica incisiva que desvenda o modelo pedagógico burocrático fundado na vigilância e na punição, na relação de dominação, no saber formal transformado em mercadoria de consumo, uma pedagogia que predomina na maioria das nossa escolas e universidades. De outro, o itinerário de uma alternativa pedagógica libertária, recuperada e sintetizada na práxis do educador contemporâneo. No final do percurso, a certeza da sua atualidade.
Alguns excertos do desenvolvimento do trabalho de Ozaí:
“A fusão de um saber, constantemente acumulado e renovado pela própria natureza da instituição escolar, com as técnicas disciplinadoras-burocráticas herdados dos presídios avultam os efeitos da concentração do poder de dominação e controle. A escola, através do saber, aperfeiçoa os meios de controle, podendo dar-se ao luxo de dispensar o recurso à força. A própria prática de ensino pedagógica-burocrática permite-o, na medida em que reduz o aluno ao papel de mero receptáculo de conhecimento, fixa uma hierarquia rígida e burocrática na qual o principal interessado encontra-se numa posição submissa e desenvolve meios para manter o aluno sob vigilância permanente (diário de classe, boletins individuais de avaliação, uso de uniformes modelos, disposição das carteiras na sala de aula, culto à obediência, à superioridade do professor etc.).
Nesta estrutura escolar, o poder de punir é legitimado e concebido como natural. Como salienta Tragtenberg: “Na escola, ser observado, olhado, contado detalhadamente passa a ser um meio de controle, de dominação, um método para documentar individualidades. A criação desse campo documentário permitiu a entrada do indivíduo no campo do saber e, logicamente, um novo tipo de poder emergiu sobre os corpos”. (Idem)”
(…)
“Os próprios alunos se tornam agentes fomentadores deste sistema pedagógico. Imbuídos dos valores que enfatizam o individualismo e não a coletividade, a competição e não a solidariedade, a autoridade e não a liberdade, o saber formal-professoral e não o saber como algo socialmente construído, doutrinados e viciados desde a infância em procedimentos que ora legitimam a pedagogia-burocrática, ora são formas negativas de resistência, os alunos têm dificuldades de assumirem-se enquanto sujeitos ativos do processo educativo, em estabelecer uma relação não-autoritária com seus professores, em desenvolverem processos de aprendizagem que objetivem a produção do conhecimento e não apenas a memorização de conteúdos.”
(…)
“A alternativa pedagógica libertária
Não sejamos pessimistas. Se a realidade atual exacerba os elementos críticos da pedagogia burocrática apontados por Tragtenberg, ainda é possível pensar e agir de forma diferenciada. O mestre nos oferece as pistas para uma nova pedagogia fundada na solidariedade, na autonomia e liberdade dos indivíduos e na autogestão. Trata-se da reapropriação do saber pelos trabalhadores, de desnudá-lo e resgatar seu caráter social e coletivo. Não mais o saber formal ingressado pela instituição escolar: a própria escola precisa ser transformada.”
Por fim um excerto da conclusão:

“Tragtenberg firma-se pelo exemplo de coerência entre o discurso e a prática. Seu relacionamento com os sindicalistas combativos, as oposições sindicais, os trabalhadores e seus colegas de trabalho e os estudante comprova-o. Seus artigos na coluna “Batente” e em outros jornais revelam uma permanente valorização do conhecimento operário, uma constante disposição, rara entre nossos intelectuais, de ‘dar uma força’, de servi-lo. Seu carinho e dedicação aos intelectuais orgânicos dos trabalhadores é outra prova viva de uma pedagogia fundada na verdade e na convicção de que os indivíduos são capazes de se apropriarem do saber.”

Informamos que as ilustrações foram incluídas por nós. Para quem a leitura desses excertos sobre Maurício Tragtenberg foi estimulante, o acesso ao texto integral pode ser obtido clicando aqui.

 

Educadores do Brasil – Fernando de Azevedo 24 24UTC Abril 24UTC 2009

Este artigo, escrito por um velho amigo, foi originalmente publicado no SciELO Brasil, pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Por Nelson Piletti

No inicio dos anos 70, recém-chegado a São Paulo, forçado a deixar o Rio Grande por razões políticas — demitido que fôra pelas escolas em que lecionava e pelo Banco do Brasil — andava à procura de um tema para a minha dissertação de mestrado quando me deparei com uma notícia de jornal: Fernando de Azevedo doara o seu arquivo pessoal ao Instituto de Estudos Brasileiros. Era o fim do meu problema, o início de intermitentes e profícuos mergulhos na obra do insigne educador e sociólogo, dos quais invariavelmente emergia com o espírito revitalizado por novas e instigantes descobertas.

Desde então, por mais que tivesse tentado, orientando minhas investigações para outros temas, nunca mais consegui me libertar de sua presença, fascinado por sua controversa figura ou premido pelas circunstâncias. A partir da dissertação de mestrado, restrita ao estudo da reforma educacional por ele promovida no Distrito Federal, entre 1927 e 1930 — marco fundamental entre as inúmeras tentativas de renovação do nosso ensino — ampliei a abrangência das minhas pesquisas, na tentativa de compreender a sua trajetória intelectual e humana, que procurei tornar conhecida no trabalho Fernando de Azevedo: a educação como desafio, elaborado para o INEP em 1984, décimo aniversário de sua morte, e em vários artigos publicados em 1994, ano do centenário do seu nascimento.

Hoje, tomado de perplexidade ante a situação nacional, em particular no campo educacional, em todos os seus níveis e modalidades, volto a Fernando de Azevedo, quiçá em busca de alguma luz que ilumine nossos caminhos, e me pergunto: com base em minhas limitadas investigações e reflexões, que perfil poderia traçar de Fernando de Azevedo? Quem foi o homem Fernando de Azevedo?

Fernando de Azevedo foi um homem extremamente organizado e meticuloso. Foi a primeira impressão que tive, ao entrar em contato com o seu arquivo e folhear os dez grossos volumes contendo recortes de jornais, aproximadamente sete mil matérias sobre a sua administração à frente da Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal. E todos caprichosamente organizados em ordem cronológica, identificados pelo nome do jornal e pela data de publicação, escritos de próprio punho por Fernando de Azevedo.

Fernando de Azevedo foi um homem obcecado pelo trabalho. E aqui recorro ao testemunho de sua filha Lollia, para quem o pai foi “um trabalhador incansável, um batalhador: quando chegava em casa, depois de falar conosco e nos beijar, afastávamo-nos indo brincar onde não nos ouvisse. ‘Seu pai precisa trabalhar’, como minha mãe dizia, sempre vigilante para que ele tivesse a paz necessária”. E mais: “Escreveu até o fim da vida. Conseguia escrever mesmo sem enxergar, depois eu lia o que ele havia escrito, corrigia ou modificava se assim ele achasse necessário”.

Fernando de Azevedo foi um homem obstinado, que, ainda de acordo com Lollia, “até o fim trabalhou e lutou pelos seus ideais”. Ou, no dizer de Antônio Cândido, “um exemplar raro de homem que gostava da responsabilidade e cuja lucidez é aguçada, não embotada, pelas dificuldades, porque elas espicaçam o seu ânimo combativo”. Sua obstinação ficou evidente, por exemplo, na reforma educacional que promoveu no Distrito Federal, quando lutou tenazmente para modernizar o sistema de ensino, enfrentando poderosos interesses fincados no Conselho Municipal, a famosa gaiola de ouro, quando chegou a sofrer um atentado. No calor dos debates, diante da intransigência dos intendentes situacionistas, que relutavam em apoiar a reforma, emitiu uma explosiva nota afirmando a certa altura: “O Diretor de Instrução elaborou um projeto de lei e o ofereceu ao Conselho Municipal, atendendo a um convite com que o honraram as comissões reunidas de Instrução, Justiça e Orçamento. Se nada vale, deve ser rejeitado; se tem defeitos, deve ser emendado; se é obra digna de apreço, deve ser aprovada. Supor o Diretor de Instrução Pública capaz de ceder a qualquer pressão ou transação é desconhecê-lo, senão injuriá-lo”. Os princípios da reforma — escola única, não uniforme, mas adaptada ao meio; escola do trabalho, ao mesmo tempo conteúdo curricular e método pedagógico; e escola-comunidade ou escola do trabalho em cooperação — continuam, em nossa realidade educacional, ideais em busca de realização.

Fernando de Azevedo foi um homem de pensamento, com múltiplos interesses intelectuais, para quem nada do que é humano era estranho. Da educação física — área em que foi especialista, tendo escrito uma tese pioneira em 1915 — às ciências sociais, trajetória que completou em 20 anos, transitou pelo ensino de latim e de psicologia, pela crítica literária, pela investigação sobre a arquitetura colonial e sobre a educação paulista, pela reforma educacional. Estudioso e amante dos clássicos, nunca escondeu o seu fascínio pelas ciências modernas, que procurou incluir nos currículos escolares, tanto que, nos anos 50, organizou a obra As ciências no Brasil, cuja segunda edição acaba de sair pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1994. Entre 25 livros, a maioria na área da educação, escreveu obras pioneira no campo das ciências sociais como Princípios de Sociologia (193S), Sociologia, Educacional (1940) e Canaviais e engenhos na vida política do Brasil (1948).

Segundo o testemunho insuspeito de Paschoal Lemme, Fernando de Azevedo foi “urna das mais altas expressões da inteligência e da cultura do Brasil moderno”, destacando-se por três contribuições fundamentais: “1. A grande reforma do ensino no antigo Distrito Federal (1927-1930) (…), reforma essa que, segundo as opiniões mais autorizadas, foi o marco inicial do processo de modernização do ensino no Brasil. 2. O Manifesto dos pioneiros da educação nova (1932) (…), documento único na historia da educação brasileira. (…) Subscrito por um grupo dos mais eminentes educadores e intelectuais, mantém até hoje sua validade. 3. A monumental obra A cultura brasileira, redigida inicialmente para servir de introdução ao recenseamento de 1940, tornou-se de consulta obrigatória para quem deseja conhecer a evolução da cultura nacional, em todos os seus aspectos” (Carta ao Jornal do Brasil, 1976). A estas três poderíamos acrescentar uma quarta contribuição, que foi a sua importante participação no processo de fundação da Universidade de São Paulo (1934), destacando-se como um lutador incansável pela implementação do verdadeiro espírito universitário, plenamente identificado com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como anima mater da Universidade.

Fernando de Azevedo foi um homem de ação, tendo exercido vários cargos administrativos, a maioria na esfera educacional, entre os quais podem ser destacados: diretor-geral da Instrução Pública do Distrito Federal (1927-1930); diretor-geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo (1933); diretor do Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (1933-1938); diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1941-1943); chefe do Departamento de Sociologia e Antropologia da FFCL da USP (1947); secretário de Educação e Saúde do Estado de São Paulo (1947); diretor do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo (1956-1960); secretário de Educação e Cultura do Município de São Paulo (1961).

Fernando de Azevedo foi, acima de tudo, um homem integro, um humanista na verdadeira acepção da palavra. Por isso, um homem permanentemente atormentado, “de espírito inquieto e insatisfeito consigo mesmo e com quase tudo que vê à volta de si”, como reconheceu em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1968. Por isso, um homem que lutou pelo desenvolvimento do humanismo, o qual, em suas palavras, “não está na matéria que ensinamos (seja qual for, letras ou ciências), mas no espírito que nos anima no ensino de qualquer disciplina e na maneira de ensiná-la”. Por isso, que o digam Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Maria Isaura Pereira de Queiroz, seus assistentes na USP, o seu apoio àqueles que com ele trabalharam, a sua solidariedade ativa para com os colegas, levando-o a comparecer espontaneamente, apesar de aposentado, para acompanhar de perto os depoimentos dos professores convocados para depor em inquérito policial militar, em 1964.

Finalizo com Antonio Cândido, sem dúvida a melhor companhia neste caso: “Como seu aluno e em seguida seu colaborador de muitos anos; como seu discípulo e amigo, quero que este testemunho sirva principalmente para transmitir às gerações novas a lembrança de um homem insigne, que possuía a retidão escarpada dos lutadores e a ternura afetuosa dos grandes corações”.

Nelson Piletti é professor do Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação da Faculdade de Educação da USP. É autor de A Reforma Fernando de Azevedo — DF, 1927-30 (FE-USP, Coleção Estudos e Documentos nº 20,1982) e Fernando de Azevedo: a educação como desafio (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP-MEC, Brasilia, 1985
 

Educadores do Brasil: Lauro de Oliveira Lima 24 24UTC Março 24UTC 2009

Reproduzimos, a seguir, um artigo publicado originalmente em 10/04/2009  em “O Povo”, do Ceará, e mais recentemente no Jornal da Ciência.

Por:  Ariosto Holanda

Ao refletir sobre o conceito que gozava o município de Limoeiro do Norte de ser o berço cultural do Vale do Jaguaribe percebi que as razões de tal predicado estavam relacionadas com as obras de seus professores e educadores. Na minha análise identifiquei entre muitos ilustres professores, pelo menos dois grandes semeadores da educação. D. Aureliano Matos e Lauro de Oliveira.

A obra de D. Aureliano, apesar de localizada em Limoeiro, teve o mérito de funcionar como um laboratório de ações exemplares que se irradiavam para todos os municípios circunvizinhos. Já a atuação do professor Lauro foi mais abrangente. As suas obras educacionais, que alcançaram todo o território nacional chegando inclusive ao exterior, o consagraram como o filósofo da educação.

Lauro nasceu em Limoeiro, em 1921, ali fazendo seu curso primário na escola do mestre Afonso onde os alunos repetiam a tabuada e cantavam o bê-á-bá sob o regime da palmatória. Formado em Direito e Filosofia, exerceu durante anos o magistério. Mas, foi ao fundar o ginásio Agapito dos Santos que se revelou como reformador do sistema pedagógico escolar. Os seus livros A Escola Secundária Moderna e Formação do professor Primário descrevem os fundamentos da renovação pedagógica que implementou.

Em 1955 já como inspetor seccional do MEC promoveu a democratização do ensino por meio de várias ações onde se destacaram as jornadas pedagógicas, em diferentes cidades do interior, com a realização de cursos de aperfeiçoamento, e a criação dos clubes cientistas de amanhã. Planejou e administrou a primeira campanha de alfabetização em massa promovida pelo MEC e os Cursos de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário – Cades.

Em 1963, é convidado a participar da equipe do Ministro da Educação Paulo de Tarso como Diretor do Ensino Médio, tendo como companheiros Armando Hildebrando no Ensino Industrial, Paulo Freire na Erradicação do Analfabetismo, Darcy Ribeiro na Universidade de Brasília e Anísio Teixeira no Ensino Fundamental.

Nunca a educação brasileira foi tão criativa Infelizmente, o golpe de 64 atingiu em cheio o professor Lauro de Oliveira. Foi preso, cassado e demitido. Ao sair da prisão, embora traumatizado, foi fazer o que sabia: escrever e lecionar.

Defensor das teorias de Jean Piaget, obteve a aprovação do eminente psicólogo suíço para instalar no Rio de Janeiro um Centro Experimental e Educacional Jean Piaget conhecido como A Chave do Tamanho. O professor Lauro de Oliveira não só defendeu os princípios e os métodos da Escola Piaget como demonstrou na prática a sua eficiência.

Em 1993 é condecorado pelo governo federal com a medalha e diploma de Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo. Em 2007 a Universidade Federal do Ceará lhe confere o título de Doutor Honoris Causa.

Como historiador merece destaque a sua obra Na Ribeira do Rio das Onças onde descreve a história de Limoeiro do Norte, nos seus aspectos geográficos, antropológicos e políticos.

Com certeza o Brasil lembrará na sua história o nome de Lauro de Oliveira como o do escritor, filósofo e professor que contribuiu decisivamente para a melhoria da qualidade do ensino com medidas revolucionarias e inovadoras.

Ariosto Holanda é deputado federal pelo PSB.

Ver também:

1. A obra de Lauro de Oliveira Lima em : LAURO DE OLIVEIRA LIMA

2. Psicopedagogia- Lauro de Oliveira Lima

3. Livros de LAURO DE OLIVEIRA LIMA

4. Lauro de Oliveira Lima – Pensador

5. A Chave do Tamanho