Germinal – Educação e Trabalho

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Como Trabalhar Metodologias na Educação Profissional 8 de julho de 2008

 

girl who plays on the beach III, filipefrancoarquivo.blogspot.com

girl who plays on the beach III, filipefrancoarquivo.blogspot.com

 

 

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz,
limpas as mãos, minha alma limpa,
a face descoberta, aberto o peito,
e – expresso documento -a palavra 
conforme o pensamento .
(Profisão do Poeta – Geir Campos)

 

 

 

Breve introdução

 

Devo começar pedindo desculpa. Tenho dois motivos para isso. Sempre me considerei e sei que ainda sou absolutamente incapaz no falar para grandes públicos, especialmente em situações formais como esta. Essa é a primeira razão do meu pedido de desculpa: eu, auto reconhecidamente incompetente, apresento-me e teimo em falar com vocês (1).

 

Quando convidado, tinha justificativa para tanto ousar. Aceitei o desafio supondo que o meu saber sobre o conteúdo pudesse compensar a falta de jeito do dizer. Ledo engano. Ao preparar escrita e fala, defronto-me com múltiplas possibilidades de abordagem, mas nada sucinto, direto e simples, que caiba no tempo e nas laudas disponíveis. Percebo que tenho trabalhado, aplicado e experimentado muito metodologias. Tenho, no entanto, refletido pouco sobre elas. Percebo mais: sobre o tema tenho mais dúvidas do que certezas.

 

Aí estão, então, os dois motivos do pedido de desculpa: falo mal e pouco sei falar sobre como trabalhar metodologias na educação profissional.

 

Charles Chaplin, Paulette Godard

Charles Chaplin e Paulette Godard, cena final de Tempos Modernos

 

Uma cena

 

Não canto onde não seja a boca livre,
onde não haja ouvidos limpos
e almas afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo – ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
(Profisão do Poeta – Geir Campos)
 

Constatado isso, o que posso fazer aqui então? Escrevendo o texto e preparando a fala, pensei em várias alternativas. No Fórum, poderia, como exemplo, após esse pedido de desculpa, levantar-me e ir embora. Melhor ainda, como toque de originalidade e como forma de ampliar o lance dramático, poderia antes da fuga dizer: a minha fala anterior e essa minha saída inesperada tem muito a ver com a utilização de metodologias na educação profissional. Reflitam sobre isso!

 

 

Explorando a cena

Majorie Tauer

Marjurie Tauer - watercolor

 

Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio de meu canto.
Trabalho à noite e sem revezamentos.
 Se há mais quem cante cantaremos juntos;
 sem se tornar com isso menos pura,
 a voz sobe uma oitava na mistura.
(Profisão do Poeta – Geir Campos)
 

Essa última alternativa não deixa de ser um meio, uma forma, um método para colocar em questão o uso de metodologias na Educação Profissional. A retirada seria, então, uma alternativa metodológica à minha exposição. Estava , naquele momento da preparação, entre duas possibilidades de caminho para este meu trabalho: uma fuga ou uma fala incompetente.

 

Enquanto formato alternativo, a fuga parecia apresentar algumas vantagens. É um formato inédito, original, dramático, surpreendente. Se posto em prática, provavelmente mobilizaria a todos os presentes. Teria a vantagem adicional e nada desprezível de não apresentar nenhuma resposta, de não formular nenhuma regra, de não fornecer nenhuma receita…Seria eficaz?

 

Nesse ponto da preparação, percebi que tinha começado a refletir sobre métodos e que, para mim e como verdades provisórias minhas, alguns enunciados importantes poderiam ser retirados da cena antes imaginada e quase concretizada. Vou colocá-los como forma de suscitar a discussão e o debate. Vejamos então:

 

  • Assim como na cena imaginada, toda proposta metodológica deveria prever já de início (seja de uma aula, seja de uma sessão ou de um curso) uma situação de suspensão das expectativas corriqueiras, um deslocamento da rotina, uma inquietação, uma surpresa, uma emoção, um desequilíbrio…, que perdurasse durante todo o processo.

 

  • O inusitado deve envolver docente e alunos. Na cena imaginada, a da fuga, nem eu teria um controle absoluto sobre o que sucederia depois. Não vale o docente colocar os alunos em desequilíbrio e permanecer senhor absoluto da situação.

 

  • A situação tem que estar relacionada e coerente com os objetivos, com o conteúdo e com o contexto onde a Educação Profissional é realizada. Isso é óbvio, mas tem que ser dito. No caso da cena, esse princípio está na base da minha desistência de uma fuga real. Eu não tinha nenhuma garantia, após a minha saída, que o tema do debate fosse a metodologia da formação profissional. Muito provavelmente o debate giraria sobre minha sanidade mental. Além disso, mudaria o formato do Fórum e seria extremamente indelicado com minha colega de mesa.

 

  • A situação deve problematizar, desconstruir o saber já existente ou colocar um desafio em relação ao conteúdo e aos objetivos da unidade de ensino. Aqui, novamente, eu não tinha certeza que a cena por mim imaginada produziria tais efeitos sobre o nosso tema (como trabalhar metodologias na Educação Profissional).

 

  • A cena imaginada não tinha e todo problema posto na situação inaugural não precisa e é bom que não tenha resposta pronta. Pode, assim, propiciar uma busca conjunta, docente e participantes, da resposta. Mesmo que o problema seja o mesmo, a resposta de cada grupo será, necessariamente diferente.

 

  • Essa última consideração, descarta um conjunto de práticas metodológicas em que a atividade, a dinâmica, a vivência, o jogo, o exercício, a pesquisa, …, são propostos como forma dos participantes chegarem a conclusões que de início já eram esperadas ou conhecidas pelo docente. Não se trata de refazer o caminho da construção do conhecimento, nem de apreender ou constatar uma verdade. Trata-se de construir o conhecimento. Trata-se de reproduzir na esfera da Educação Profissional o movimento real do conhecimento. Isso significa vê-lo, já no momento da aquisição, como uma construção histórica e coletiva, portanto carente de certezas, muitas vezes contraditória e atravessada pelo transitório.

 

  • Tanto o problema como a busca devem mobilizar o pensamento, as habilidades e atitudes já existentes no grupo de participantes. O envolvimento na tarefa, o já conhecido e a troca devem ser o suporte para o novo.

 

  • Na minha experiência a condição anterior (mobilização, envolvimento da pessoa como um todo e troca) são propiciados por três tipos de formatos da situação inicial: o jogo, o projeto coletivo e a produção artística.

 

  • Os recursos da moderna tecnologia, em especial , da micro informática podem enriquecer o desenho desses formatos, mas não são fundamentais e seu uso não indica necessariamente uma metodologia renovadora. Basta lembrar que o Microsof Windows 98 – O Início, o programa de treinamento para o uso do Windows 98 é, em sua concepção metodológica, muito convencional.

 

  • Dos três formatos, jogo, projeto e produção artística, para mim o mais promissor é o último. Se possível, produziria o desequilíbrio com arte. Através da arte buscaria a superação do problema. Ainda utilizando formas artísticas, sistematizaria e sintetizaria o saber adquirido no movimento. Enfim, pensaria cada situação de formação, cada sessão de trabalho e cada programa de formação como uma obra de arte.

 

Ao final, creio ter uma resposta inicial para a questão que suscitou a busca. À pergunta: como trabalhar metodologias na Educação Profissional? Respondo: com arte.

 

Concluindo


 

 

 

Vicent Van Gogh, Almond Blossom, 1890

 
 
 
Canto apenas quando dança
nos olhos dos que me ouvem, a esperança  
(Profisão do Poeta – Geir Campos)
      

 

Como provocação para um debate, proponho a arte como modelo do desenho metodológico da Educação Profissional. Vou além, proponho o artista como modelo do profissional a ser formado. Ninguém pensaria, ao pensar a formação de um artista, que ele, ao fim, fosse um bom executor de técnicas e copista de obras já feitas. Na Educação Profissional de um artista busca-se a formação de um criador. Toda Educação Profissional poderia ser pensada e operada com o objetivo de formar profissionais que vissem o objeto de seu trabalho, o próprio trabalho e a vida como obras de arte a serem criadas e construídas.

 

Kees Von Donger - Spling 1908

 

 

 

 

 

No fim da fala, o pedido de desculpas tem que ser repetido. Já na preparação, pressinto que não serei coerente com a minha proposta. Para tanto, seria preciso que o texto anterior fosse dito com arte. Isso supera em muito a minha capacidade. Desculpem-me e obrigado pela atenção.

 
 


 

 

 

 

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11 Responses to “Como Trabalhar Metodologias na Educação Profissional”

  1. ultraleverock Says:

    Geir Campos
    não sei oq falar
    nem se eu reunir
    na mais perfeita ordem
    as palavras
    nao diriam tudo !!!

  2. Sandro Marques Says:

    Se eu pudesse resumir sua obra em uma palavra diria: reconhecer.
    Assim sendo a contextualização inicial partiria do conhecimento que se tem de si mesmo em relação ao que se vai aprender para a construção da aprendizagem.
    Assim sendo é o reconhecimento de suas habilidades a fim de contribuir para o novo conhecimento. Fica fácil então imaginar a mobilização que se queira aplicar aos estudantes, tendo a certeza de conhecer o objeto de estudo e a si mesmo neste objeto.
    Gostei muito de seu texto, foi profundo.
    Abraços…

  3. A dificuldade inerente ao exercício da atividade é um desafio que realmente nos remete a pensar sobre o que fazer para melhor alcançarmos o envolvimento do aluno em nossas classes. E concordo plenamente quanto a desconstrução do conhecimento. Ele deve ser mexidom questionado, posto em voga para que o aluno possa efetivamente refletir sobre temas em discussão a fim de que possa efetivamente tornar-se um profissional com uma visão mais refexiva e holística. Parabéns pelo texto.

  4. Ana Lúcia Says:

    Realmente comovente, como de forma simples, criativa e poética você consegue nos fazer pensar na metodologias para a Educação Profissional, um tema aparentemente árido pode se tornar um manancial de idéias….lindo!

  5. Ebianí Ferreira de Santana Faria Says:

    É um texto realmente reflexivo. Percebo neste momento de leitura, que sempre estamos como uma onda no mar como diz Lulu Santos- ” a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito…” A busca por estratégias de ensino tem que ser um “indo e vindo infinito” porque a dinâmica da vida é essa. Parabéns pelas reflexões. Obrigada por me proporcionar crescimento.

    Ebianí Ferreira de Santana Faria
    Natal/RN

  6. CARLOS BELCHIOR RAMOS Says:

    Metodologia educacional é como a didática, e acredito, não se ensina ela deve brotar suave como uma planta que com a maturidade torna-se perfume ao alfato de quem se encanta.

  7. Ana Paula Tourinho Monteiro Says:

    Texto maravilhoso e muito elucidativo. É isso aí! Formar profissionais que vejam o seu trabalho, a sua vida como obras de arte… Muito bonito; abala a alma. Parabéns e obrigada pela reflexão.

  8. Janice Says:

    Muito interessante a forma como a metodologia na Educação Profissional adquire um caráter poetico, muito importante mostrar aos alunos que eles podem ser construtores de praticas novas para o trabalho

  9. Ótimo, belo, coerente asim…. como você, a simplicidade é o maior e melhor argumento para a acomplexidade. E aí quem não sabe dizer sou eu.
    Parabens

  10. Marcelo Belisário Says:

    Marcelo Belisário – Então o novo pensar Metodologias de ensino estar intimamente ligado com a arte que sempre interfere no conhecimento e age como elemento transformador, propiciando experiências que modificam nosso modo de vê, pensar e construir novos conceitos a partir de nosso conhecimento prévio e das vivências em sala de aula, unindo teorias, a prática e a atitude de transformar o já conhecido em novo.

  11. SOLANGE NAZARÉ LEITE SUSSUARAN BATISTA Says:

    Uma forma de inteligente de fazer ver que fazer Educação profissional é preciso amar em todos os sentidos o que se faz.A metodologia é fantástica,uma maneira bastante lírica de mostrar que somos capazes basta querer.Obrigada!pelo texto.


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